terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Missa de 30º dia

Alguns pensamentos soltos:

- O meu pai faleceu há 30 dias e a mim parece-me já uma eternidade. Paradoxalmente parece-me também que continua vivo, porque sei o que diria face a isto ou a aquilo e é como se mo dissesse. É uma dinâmica nova, portanto estranha, mas adaptei-me bem a esta nova forma de realidade/comunicação/acompanhamento.

- Acho um piadão às pessoas que me dizem que ficaram muito sentidas/abaladas/chocadas com a morte do meu pai e que ainda não recuperaram ou que lhes custa superar a perda. Apetece-me sempre perguntar "Mas sabe quem eu sou? Eu sou filha. A filha mais velha. O bebé grande do meu pai. Tem mesmo a certeza que quer falar de perda?". O meu pai sempre foi um expoente de vitalidade - o bicho-carpinteiro que vive em mim devo-lhe a ele - por isso não me cabe na cabeça cultivar a morte, se o meu pai era vida.

- As últimas semanas (mês e meio, vá) foram mais de sobrevivência do que outra coisa. Vida aquilo não era. E ele estava feliz? Não. Nós estávamos feliz por vê-lo assim incapacitado? Não. Não acredito em arrastar vidas só porque sim, especialmente quando não há possibilidade em reverter a situação.

- Uma das missas de 30º dia foi na Igreja de S. Domingos, em Lisboa, e foi fantástico. Eu nunca lá tinha entrado e fiquei pasma. É enorme e, segundo a minha mãe, é o que sobrou do Terramoto de 1755. Eu nem sabia que sobrava pedra sobre pedra desse tempo. Está a ver, caríssimo leitor, o meu pai, que dizia sempre que parar era morrer, não pára de me surpreender, mesmo agora!

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