sexta-feira, 30 de novembro de 2012

67º momento cultural: Paradies - Liebe

Eu sabia que o filme tratava de turismo sexual feminino mas surpreendeu-me constatar que a linha que separa o cliché da realidade é muito mais ténue do que alguma vez imaginara. Se de início lidei bastante bem com a temática do filme a páginas tantas o conteúdo chocou-me ao ponto de pensar estar diante de um filme porno... Há coisas que ultrapassam a minha imaginação.
O enredo é basicamente este: mulheres cinquentonas austríacas, gordalhufas e com muita falta de afecto (independentemente de serem casadas ou não) vão para o Quénia de férias engatar uns negões... É um negócio praticamente vantajoso para ambas as partes: elas ouvem promessas de amor eterno que gabam a sua beleza e sentem-se amadas, eles recebem dinheiro e ainda há regabofe para todos.
Foi decandente ver mulheres com aquela idade a prestar-se àquelas figuras simultaneamente altivas e naives. Os rapazes eram muito novos... uns contavam o conto do vigário outros pareciam bonecos amestrados por umas quantas notas.
Foi doloroso ver. O pior é que eu sei que isto acontece.
No início, olhava para elas e via as mulheres de Botero... a partir de certa altura nem Botero me valeu.

Várias horas, vários problemas

10:04 - Ganhei ou não ganhei bilhetes para o cinema?
12:10 - Afinal quando começam as férias de Natal e quando terminam as aulas?
15:43 - O texto vai sair em Portugal ou no Brasil?
16:06 - Ainda consigo levantar o vale da Promod ou vou directa para casa?
16:35 - Mudança de planos: em vez de irmos ao Wine Bar, vamos ao cinema? Ganhei bilhetes...
17:18 - Visita de médico a amigas com filhos bebés. Ai que curioso, não temos conversa!
18:40 - A caminho do cinema liga-me a minha empregada a dizer que a tinha trancado em casa. "Tenho de voltar para casa."
18:43 - Lembrei-me de uma chave extra que tenho em casa, mas a minha empregada não fala alemão nem inglês o suficiente para perceber a descrição "no cabide dos casacos na entrada". "Tenho mesmo de ir a casa. Ainda bem que usei os saltos mais altos que tinha..."
18:57 - "Desculpe lá, saí e como reflexo tranquei a porta. A chave estava aqui" "Mas esse cabide não tem casacos..."
19:04 - "Desculpa, estou atrasada... Já estás aí? Podes levantar tu os bilhetes?"
19:05 - Fiquei presa no metro...
19:20 - Vamos lá ver o filme... Começou às 19:00?!! Então nao era às 19:30.
20:48 - Tirem-me daqui... eles não vão mostrar isto... isto não está a acontecer... eu não quero ver isto.
23:36 - Quero ir dar aulas para a Malásia ou não?

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Nervos em franja

Cancelei uma ida ao teatro por achar que precisava de ficar uma noite em casa sossegada. Cheguei a casa e aparentemente tinha ganho bilhetes para a ante-estreia de um filme... que começava duas horas depois. Aí começou o meu drama.
O facto de ter de sair de casa outra vez nem me transtornou tanto pois queria ver este filme, mas tinha ganho DOIS bilhetes e o filme começaria em duas horas... Liguei a SEIS pessoas (eliminando previamente pessoas fora do país, pessoas doente e pessoas com relações siamesas)... normalmente quando quero/preciso mesmo de companhia páro ao 3º número já irritadíssima. Também sei que passar a lista de contactos de A a Z é meio caminho para me desanimar. Pois liguei a seis pessoas incluindo a quem não devia. Não me custa nada ir ao cinema sozinha, só me estava a chatear ter dois bilhetes e deixar um caducar. Na verdade aprendi a fazer uma série de coisas sozinha sem carecer de companhia... vou a Bali, não vou?
A caminho do cinema uma amiga minha ligou-me a dizer que se sentia mal por me deixar agarrada. Eu disse que não havia problema pois tinha sido super em cima da hora e afinal ela já tinha o serão combinado com o marido. Mais uns minutos de conversa e ela mudou de ideias e ia ter comigo ao cinema. Fui ao cinema e levantei os bilhetes... mas não era o filme certo. O filme que eu queria ver tinha estreado na terça. Eu que já estava irritada com a situação toda não poderia crer que me tinha enganado no cinema... e em 15 minutos começaria o filme. Liguei à minha amiga a avisar que estava no cinema errado. Resumindo a história: passei por mais dois cinemas, ninguém sabia de ante-estreia nenhuma, liguei à minha amiga a dizer que fazia melhor em ir ter com o marido e voltei para casa com o rabo entre as pernas e numa pilha de nervos que só visto.

Fui confirmar o mail e não me enganei no cinema (o primeiro) mas o filme não estava lá.
Já seguiu a reclamação.
Vou para debaixo do chuveiro a ver se me acalmo e segue um White Russian duplo. Hoje mereço.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Pedicure


Uma das coisas que queria fazer quando fosse para o sudeste asiático era este tipo de pedicure. Se o Padre António Vieira dava sermões aos peixes, se Jesus Cristo os multiplicava, eu posso alimentá-los e era capaz de apostar que os peixes, podendo escolher, optavam pelas minhas peles saborosas, mas claro que isto sou eu a ser tendenciosa. Fui mais pela curiosidade do que por outra coisa, mas receava fazer-me impressão, até porque eu não gosto que me toquem nos pés... Mas digo-vos que a sensação é óptima e na verdade não muito diferente do tratamento de ondas curtas que faço às costas... mas sem electricidade! Foi um rico banquete o que eu apresentei àqueles peixinhos, eles comeram, lambuzaram-se e pareceu-me ouvir chorarem por mais, quando tirei os meus pezitos do tanque uma meia hora depois. Agora só me faltam os sapatinhos de cristal! 

E o senhor-dono/funcionário-perito-em-pés foi uma simpatia e ainda me gabou a mala!

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Being John Malkovich


A meio do concerto lembrei-me disto. Será que continuo na saga dos mosqueteiros? Será que me enganei entre Aramis e Athos? Será que Dumas continua a dar cartas na minha vida? Ou será que sai um White Russian para a mesa do fundo?

66º momento cultural: Carminho

Hoje foi dia de ir ver a Carminho à Konzerthaus e eu estava bastante curiosa. Não consegui ouvir o último cd de fio a pavio porque me cansei e aborreci a meio e à segunda tentativa desisti. Mas eis a magia dos eventos ao vivo: ao vivo tudo parece muito melhor. Nestas ocasiões, lembro-me sempre do meu orientador do estágio de inglês que nos dizia que nunca deveriamos contentar-nos a ver arte em livros da Taschen, impressa em canecas ou souvenirs vários. Tínhamos mesmo era de ir aos museus e olhar para a obra em si. Na altura, não percebi qual era o problema dos livros da Taschen e o meu guarda-chuva tinha vindo do Fine Arts de Boston com um belíssimo Monet. No entanto, hoje dou-lhe toda a razão, tanto para arte pictórica, dançável ou cantável. Estar lá diante da obra é impagável! E assim foi a Carminho.
Pela primeira vez, fui a um concerto de fado onde não reconheci canção nenhuma, nem a Casa Portuguesa, nem Maria Lisboa nos encores, nada! Houvesse Perdoname com o tipo espanhol... Pelo contrário, reconheci o hiper talentoso Luís Guerreiro que faz maravilhas com uma guitarra portuguesa nas mãos. A Carminho impressionou-me quando se sentou e continuou a cantar. Não sei como é possível emitir aquela voz sentada. E no último encore ela cantou sem microfone e continuou a encher a Mozartsaal todinha com a sua voz, não lhe escapou um canto. Simplesmente magnífico.

De qualquer modo e apesar de ela ser uma simpatia e ver-se que ela estava radiante por ter casa cheia, podia investir um bocadito numas aulas de inglês... é que não houve uma terceira pessoa do singular do Present Tense que ela acertasse...

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Calíope, dona de casa


Ao fim de quase 10 anos a viver sozinha, redescobri o conceito de "amaciador de roupa". À segunda tentativa, acertei na caixinha da máquina. As diferenças entre as minhas toalhas e folhas de lixa já eram bastante difíceis de identificar. Como é que nunca me ocorreu comprar amaciador, se até era prática comum lá em casa (em Lisboa)? Se servir de atenuante, uso Calgon desde que tenho uma máquina de lavar só para mim (= há uns 7 anos).

Questões respondidas

Tudo tratado!

- Nem 5 nem 7, fico 6 dias em Bali e já vou cheia de sorte! Está marcado!
- Mala feita, mala desfeita e roupa lavada e pronta a estender.
- White Russian Mistress, that's my middle name!
- Unhas pintadas: sempre!

domingo, 25 de novembro de 2012

65º momento cultural: Stedelijk Museum

Para imprimir alguma cultura a este saltinho a Amesterdão, lá fui eu ao recém-inaugurado Stedelijk Museum após 12 anos encerrado ao público. Enquanto lá me passeava pelos imensos, luminosos e amplos espaços comecei a duvidar da minha veia artística, quero eu dizer, gosto de ir a museus mas não paro muito tempo diante de obras de arte. Na verdade, eu vejo por norma exposições em movimento, isto é, sempre a andar, sendo o meu objectivo encontrar alguma obra que me faça parar diante dela. Uma das primeiras paragens foi este magnífico baile:

Jan Sluijters, Bar Tabarin

 Foi pena não haver em poster, pois adorei a energia que este quadro transmite, se na parte superior luz, cor, fogo de artíficio e um bocadinho de Van Gogh, em baixo há música, dança, alegria e movimento. Ficaria bem aqui na sala.


 Nola Hatterman, On the Terrace

É um quadro de 1930 e fez-me pensar no papel das pessoas de cor na sociedade holandesa. Eles também tiveram colónias em zonas exóticas do globo que se reflecte hoje na sua sociedade. No entanto, o que me fez parar diante deste quadro foi o facto de não só em 1930 um indivíduo do Suriname ter direito a estar numa esplanada a beber a sua cervejita como ser objecto de uma obra de arte, sem qualquer pormenor pejorativo. Tirando o retrato de escravos não me lembro de ver pessoas de cor em quadros e muito menos em primeiro plano.


Gino Severino, Train blessé

Ao olhar para aqui só me conseguia lembrar de (mais) uma grande falha na minha cultura portuguesa. Não sei nada de arte portuguesa... muito pouco, quase nada. Uma vergonha. Olhava para o quadro e lembrava-me de Amadeo Souza Cardozo... mas não sei porquê. Sei nomes e depois não os sei enquadrar...

Deixem-me fazer a ressalva que não sou grande fã da Rembrandt e companhia e que dado viver entre Klimts e Schieles, a escola de pintura flamenga parece-me sempre hiper realista e muito sombria.

Cachorrinho

Seguindo inconscientemente uma tendência da blogosfera, também eu me tornei amiga dos animais neste fim-de-semana. Não dos animais em geral, que eu não sou de dar muitas confianças a estranhos, mas de um cão em particular. Não estou habituada a interagir com animais (nem plantas, nem crianças... e pessoas é o que se sabe...) por isso a ideia de ter de lidar com um cachorro por uns dias formou-se no meu horizonte com alguma curiosidade. (Até porque não sendo an animal person de todo, sou mais uma cat person do que dog person). A interacção foi bastante bem sucedida ao ponto de já ter ouvido que ele anda lá por casa à minha procura, sendo que eu voltei à casa de partida (a minha). De qualquer modo, tivemos direito a muita brincadeira e até uma ida às emergências veterinárias. Apesar do pequeno Louis ser adorável, ter um cão não é nada para mim. Apercebi-me de que é mesmo uma mão cheia de emoções e que para ter um cão é preciso muito tempo disponível.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Encontros imediatos no aeroporto

É tiro e queda. Venho para o aeroporto e acontece-me qualquer coisa. Desta vez, a rifa que me saiu continha o nome do meu antigo namorado austríaco, que não via há um largo par de anos.

Ele disse-me "Calíope, tu estás na mesma!" querendo dizer "estás linda maravilhosa como sempre" e eu pensei primeiro "será que ele tem um casaco insuflado debaixo do blazer ou engordou imenso", depois pensei "não, totó, ainda estou mais gira do que antigamente e esperta como nunca: os meus três cabelos brancos são prova de sabedoria" e por fim pensei "pois, não posso dizer que ele está na mesma... pergunto pela mulher?!"

Vou embarcar!

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Questões

Se estão a lidar com problemas graves, não leiam o que se segue, pois vou enumerar uma série de maleitas que me atordoam de momento o espírito e acredito que possa ser insultuoso para os demais.

- Não sei se quero praia ou campo, 5 ou 7 dias em Bali. (Ajuda do público?)
- São quase meia-noite e eu ainda não fiz a mala para amanhã.
- Tenho tudo para fazer um White Russian e ainda não consegui fazer o dito, quanto mais bebê-lo.
- E ainda há unhas por pintar...

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Mergulhos bilingues XXI

Sim, porque a minha tese não está a ganhar pó! Estava eu a escrever mais umas linhas quando me senti qual coelho duracel a bater contra a parede. Não sabia como continuar, não via como contornar o obstáculo e continuava a gastar a pilha e a tocar tambor. Felizmente enquanto continuava a tocar tambor e a gastar a pilha, tive a presença de espírito de recorrer a terceiros, mais concretamente ao autor do artigo mais próximo do meu computador. Escrevi ao excelentíssimo senhor professor pedindo o esclarecimento possível às minhas dúvidas. No espaço de algumas horas (3 ou 4), tinha uma resposta simpática, elucidativa e com mais uns artigos anexos.

Reacção da minha mãe: "Ah! É bom... mas só espero que esse professor não se transforme em ministro como o outro a quem pediste o outro artigo".

Reacção de uma colega minha: "Realmente essa gente é mesmo desocupada e não faz nada na vida... Quem é que no domingo à noite responde a e-mails?!"

Egon Schiele, Prozession

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Encarregados de educação

No fim de uma aula, um aluno veio falar comigo:

Aluno: Calíope, eu queria perguntar uma coisa que não tem nada a ver com a aula. Não tens de responder...
Calíope: Diz lá...
Aluno: A minha mãe queria saber porque é que tu vieste para Viena?
Calíope: ?!! Foi no âmbito de um programa de intercâmbio europeu para professores.
Aluno: Ah! Mas porquê a Áustria com tantos países? É que o meu pai veio para a Áustria por causa da minha mãe e a minha mãe lá em Portugal também dava aulas de alemão...
Calíope: Pois... Viena é muito bonita e eu já cá tinha estado antes... e adeus, até para a semana!

Qualquer dia organizo uma reunião de pais...

Eternamente grata

O meu country manager está de visita ao burgo e trouxe-me um quilo de castanhas portuguesas, daquelas deliciosas, daquelas lustrosas, daquelas saborosas, daquelas cujo cheiro consola, daquelas que me fazem comer dez quilos e chorar por mais, daquelas que me fazem sonhar com o Outono todos os dias, daquelas que me aquecem a alma, daquelas que o meu pai me ofereceu (20kg) quando eu fiz 20 anos, daquelas quentes e boas.
Adoro castanhas!

domingo, 18 de novembro de 2012

Ó pai, ó pai!

Normalmente as conversas ao telefone com o meu pai, a existirem, não estarão muito longe disto: "olá-tudo-bem?-chegaste-agora?-já-contaste-tudo-à-mãe?-okok-vai-lá-estudar/descansar!" E eu mal tenho tempo de articular o que quer que seja.
Hoje estivemos quase uma hora a conversar.
Há coisas impagáveis e esta é sem dúvida uma delas.
E nada gratuito.

sábado, 17 de novembro de 2012

Incognito



Tenho um estranho fascínio por blind dates: tanto dos descaradamente blind dates aos pseudo-blind-dates passando ainda por aqueles que nem sequer blind dates são, mas que eu os embrulho nesse pacote.

Gosto especialmente quando a encomenda sai melhor que o previsto!

É uma conjugação planetária rara, porém também acontece!

White Russian in the house


привет!

Kahlua e vodca já cá moram!
Os restantes tinham cá presença assídua.

ваше здоровье!

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Aluna do ano

O senhor embaixador do Brasil teve a amabilidade de me convidar para a comemoração da independência do Brasil, que por motivos de calendário não pôde ser celebrado no 7 de Setembro da praxe e que ficou adiado para a proclamação da república brasileira. Hoje (de um ano qualquer).
O coquitéu estava bem lêgau: não vi pãozinho de queijo, mas os salgadinhos e o frango com farofa e arroz de dendém estavam supimpas. Em termos de bebidas, o suco de goiaba fez-me largar o cálice de vinho branco.
O ponto alto da noite e na verdade o motivo da minha presença foi a entrega do prêmio do melhor aluno do ano do mestrado do curso de tradução de português. A vencedora foi minha aluna quando ingressou na faculdade. Fez comigo o semestre mais difícil de todos os semestres que leccionei naquela casa, onde obriguei as pobres crianças a saber o que eram anáforas, epíforas, oxímoros e quiasmos. Tiveram de ler canções de escárnio e mal-dizer que foi a pior maldade que fiz sem saber. Um ano depois, cruzei-me com esta aluna no corredor e em conversa ela disse-me que tinha pensado em desistir do curso porque os textos líricos da minha Kulturkunde eram extremamente difíceis para quem tinha aprendido português em cima do joelho no sertão brasileiro. Não desistiu, nem da minha aula, nem do curso. E possívelmente a nota máxima que mereceu, viu repetida na pauta vezes sem conta. Hoje a aluna ganhou uma viagem para o Brasil e eu acho que o prémio não poderia ter sido melhor entregue.