domingo, 11 de novembro de 2012

Night

Se os meus anos passei com sexagenários, os anos da minha amiga belga foram passados entre criancinhas que não querem passar por criancinhas e então vestem-se ridiculamente, põe três quilos de maquiagem e têm comportamentos incompreensíveis.

Passo a explicar, a minha amiga queria ir a uma discoteca decadente pelos seus anos - que já sabíamos à partida que ia ser mau - mas eu resolvi encarar a coisa como uma experiência sociológica e não me dei mal.

Antes de chegar ao sítio, já tinha bebido uma coca-cola e passado pelo McDonalds para começar a entrar no espírito da coisa. Também voltei a usar roupa "de sair à noite" e carregar na maquiagem escura nos olhos. Entre o percurso do carro para a porta da discoteca cheguei à escandalosa conclusão: a criançada que vai àquela discoteca poderia ser minha filha, não tendo eu, nesse caso hipotético, necessariamente sido mãe adolescente. Já dentro do recinto, fiz um rabo de cavalo o que me tirou 10 anos em cima e estabeleci o objectivo da noite: ver alguém que fosse da minha idade/mais velho do que eu.

O espaço em si era maior e mais arejado do que eu imaginava, faltava-lhe um bocadinho de bom gosto e coerência na decoração, mas havia 3 pistas de dança diferentes e outros espaços pelo meio. A população frequentadora era do pior. As miúdas todas com roupa dois tamanhos abaixo do que deveriam usar, com roupas muito curtas/arejadas/descapotáveis. Os rapazes com ar de wanna be primos do Cristiano Ronaldo e estranhamento pequenos. Eu com um pequeno salto de 5cm olhava para os miúdos de frente, o que me levou a pensar que ainda estão em fase de crescimento...

Passámos grande parte do tempo na sala de R'n'B/música comercial a dançar, a ver e comentar a fauna local, afinal de contas estava em pleno estudo sociológico. A páginas tantas aparecem um grupo de miúdas com um ar normal. Nada de saltos vertiginosos, nada de decotes nas costas com o soutien de fora, nada daquele ar bitchy-ready-to-go, nada de bronzeado de solário nem 3 quilos de maquiagem em cima. Eram 3 casais de lésbicas. E nenhuma delas com aquele ar hard-core-másculo-cabelo-curto-blusão-de-ganga-ou-cabedal. Nada disso, miúdas giras com uns 18-20 anos, todas de estilos diferentes, mas todas arranjadinhas e com um ar saudável.

Ao fim de duas horas já estávamos todos mais para lá do que para cá e fomos embora garantindo nunca mais voltar.

63º momento cultural: Lend me a tenor

A ida ontem ao teatro foi completamente despropositada, só parei de me arrepender de ter ido quando soltei a primeira gargalhada honesta. Tinha uma festa de anos, mas aceitei um convite para ir ao teatro antes por achar que as coisas eram compatíveis. Ao fim ao cabo foram-no, mas antes disso ainda tive de correr bastante...
Adiante, já não ia ao English Theater há anos e foi bom lá voltar. A peça foi muito divertida, apesar de no início ter achado as piadas previsíveis e consequentemente sem graça nenhuma. A história passa pelo mal-entendido de um cantor de ópera ter morrido nas vésperas de um espectáculo e de ser necessário arranjar uma alternativa. A peça sobe nitidamente de qualidade quando aparecem os dois Otelos em palco alternandamente, o que por si só dá origem a outros tantos enganos, qualquer um deles bastante risíveis.
Gostei particularmente de no final, a peça ter sido reprentada toda de novo em formato mudo e fast-forward em 4 ou 5 minutos.

E fiquei cheia de vontade de voltar a ir à Ópera com ouvidos para ouvir...
Recomendações para os meus ouvidos?

sábado, 10 de novembro de 2012

A festa

Este ano não estava com vontade para muitos festejos, não acho que 34 seja um número simpático e por acabei por organizar uma festa de anos muito low profile em comparação com anos anteriores. Foi um jantar, mais do que uma festa, mas correu lindamente. Eu passei o tempo todo a saltar de uma cabeceira da mesa para a outra, eram 18 lugares, mas julgo que consegui dar dois dedos de trela a praticamente toda a gente, o que acaba por ser uma novidade em aniversários meus (apesar de por norma as minhas festas cá no burgo terem cerca o dobro dos participantes).
Recebi prendas bem simpáticas e outras assim-assim, sendo que uma delas já a troquei hoje. Fico sempre a pensar no que as pessoas pensam de mim ou acham o que eu sou ou quanto me conhecem pelas prendas que me dão. Três exemplos: vale para um spa - na mouche; livro de receitas de bolinhos - quase ao lado: gosto de cozinhar, mas não consigo seguir receitas; caixa de chocolates - completamente ao lado: por norma não como chocolates.
Foi uma noite bastante agradável e para o ano haverá mais.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Pilha de louça

Não sou a pessoa mais arrumada do mundo... mas tenho zonas de especial implicância. Se por um lado tenho o guarda-fatos com zonas para roupa específica, ladp esquerdo para fatos, lado direito para vestidos, primeira gaveta para roupa interior, segunda gaveta para meias, primeira prateleira para t-shirts de mangas compridas e curtas (cada uma com sua coluna), prateleira do meio camisolas de malha fininha, etc, mesmo que tenha um monte de roupa aos pés da cama, não ponho a roupa no sítio errado.
Por outro, a cozinha é uma área sensível da casa. Cada coisa tem o seu lugar é certo... mas também é certo que há um local de regabofe comum a quase todos os objectos da cozinha: o lava-louça. Não lavo a louça todos os dias porque nunca almoço em casa e não vou obviamente lavar uma tigela de cereais e um prato do jantar... deixo acumular, como o caro leitor deve estar a imaginar. Bom a certa altura da semana, começo a pensar que mais uns diazitos e chega a minha empregada... e que é para isso que também lhe pago. E a louça continua a acumular, pois ao contrário dos boatos que aí circulam eu como todos os dias e mais do que uma vez!
Hoje foi o dia da Eva vir cá. Coitada. Até eu fiquei com vergonha do estado calamitoso em que estava a minha cozinha... ao ponto de considerar ontem arrumar alguma coisita. Não o fiz!
De qualquer modo, a esta altura, a cozinha voltou a ter ponta por onde se lhe pegue, uma bancada livre e o lava-louças vazio :)

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Passeio


Fui convidada para uma ricépição na embaixada brasileira.

Dress code: Passeio

É só pena que eu não me passeie assim e que devam estar na melhor das hipóteses uns 10ºC, caso contrário não pararia de exercitar a Bauchwelle para até ao evento ter uma barriga aqui como a da Gisele!
Assim, vou ter de pensar noutro modelito mais... tapado.

Inventário de vocábulos XIV

Por deveres profissionais, estava a escrever um texto para o marketing de um produto. Precisava de dizer que o produto não era passível de ser trocado por dinheiro e ocorreram-me duas palavras:
gratuito e impagável

As duas implicam dinheiro em extremos opostos: do nada ao tanto que volta a ser nada. Nunca me tinha ocorrido essa correlação: como a inexistência de dinheiro pode ir do 8 ao 80.

Audrey Heller, Daily Double

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Frustkaufen



A expressão alemã Frustessen aponta para aquelas pessoas que diante de uma situação frustrante começam a comer (o que quer que seja). Eu adaptei esta expressão a mim, transformando-a em Frustkaufen, ou seja, comprar a frustação, isto é, comprar por frustração. Com esta expressão consigo justificar para mim mesma as minhas compras, mais do que qualquer frustração, porque também as há!

Este pequeno intróito serve para explicar que ultimamente tenho comprado muita coisa e que, para além de pôr a economia das lojas da minha rua a funcionar, tenho vindo a comprovar um facto inacreditável: uso tamanhos nunca antes por mim usados!

Na semana passada fui trocar uma t-shirt 36 por uma 34... e este sábado trouxe uma saia (que eu chamei de charuto, mas queria dizer saia lápis no post abaixo) tamanho 32!!! Tudo bem que há que ter em conta que os tamanhos do centro da Europa são maiores em um número, mas mesmo que a saia seja o equivalente a um 34 da Zara, 34?!!!
Eu era aquela que não conseguia comprar um par de calças nem uma camisa nessas lojas porque elas não fechavam, talvez um 42 com boa vontade e sustendo a respiração.
E agora 34... Não sei o que é que eu vejo no espelho, não sei para onde vai a minha barriga e demais carnes num trapo qualquer S, até porque eles não têm assim tanto pano... mas estou ainda estupefacta cada vez que pego num M da vida e penso que é um bocadito largueirão... e de repente passar de gordalhufa a petite.

Vejam lá as belas compras que eu tenho feito. Tudo Promod, tirando a saia que é Orsay, mas tudo em promoções :)




62º momento cultural: Jenseits von Brasilien

A visita à exposição "Além do Brasil"/ "Do outro lado do Brasil"/... (tradução livre minha) tinha sido organizada pela minha colega de Cultura Brasileira, no entanto como promovemos a interacção entre as nossas aulas, eu colei-me à visita com as minhas turmas. A pobre colega teve de ser internada e adivinhem para quem sobrou... pois. De repente deixei de ser turista e passei a ser pessoa responsável, sem conhecer parte dos alunos...
Correu bastante bem, a caminho encontrei o meu novo aluno preferido e por isso fomos a conversar pelo caminho. Ainda bem que não levei as botas de salto vertiginoso, caso contrário não lhe conseguia acompanhar o passo. De qualquer modo, em cima do meu salto, com saia charuto e o chapéu de feltro azul não estava nada com mau ar não. Tratei de aproveitar o momento para lhe sacar informações, claro!
Entretanto ao chegar ao ponto de encontro e mais adiante reencontrei uma série de alunos que não via há imenso tempo, o aluno que me dedicou uma canção num concerto apinhado de gente, o aluno que numa aula acerca de acentuação diz "cabrão" como exemplo de uma palavra acabada em -ão e a aluna que me mandou um belo e-mail há umas semanas. Havia mais uns 15 alunos, alguns conhecia outros não.
A exposição foi bastante interessante graças ao guia - que era capaz de apostar não percebeu que eu era professora e não aluna - caso contrário seria uma série de artefactos e desenhos em exibição.

Estou aqui a pensar se comento ou não o gadjet índio que impedia erecções involuntárias... 
apesar de útil, útil para mim (em contexto académico) foi saber que D. Pedro IV foi casado com D. Maria Leopoldina dos Habsburgos...

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Vitaminas

Se há coisa que gosto é de receber correio. Emails é simpático e acompanha a velocidade do tempo, mas eu sou mesmo old school e não resisto ao correio postal. Hoje tive de ir aos correios levantar uma encomenda cujo conteúdo nem remetente conhecia.
Surpreeeesaaaa! Era uma prenda atrasada! E apanharam-me mesmo de calças na mão, pois não estava mesmo nada à espera. Era basicamente indiferente o conteúdo do pacote, pois só a satisfação de ter correio físico e vindo de quem não estava à espera já me tinham alegrado o dia.
Todavia abri o pacote e as senhoras minhas amigas acharam que eu estou a precisar de banho e de uma pele sedosa e vitaminada! Que seja! Vou lambuzar-me em body butter e depois disponibilizar os meus serviços de dadora de vitamina C!
Adorei a surpresa! (E ganhou à garrafa de vinho búlgaro que me veio parar às mãos também hoje!)

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Um feriado por semana!

Depois de duas semanas com feriados pelo meio, já não sei o que é trabalhar cinco dias de seguida... O pior é que parece que toda a gente esteve de férias nas últimas semanas e agora é tudo para ontem. Alguém que me vá lembrando que também tenho de respirar...

A mim dava-me um jeitão ter dias feriados nas próximas semanas, num dia qualquer à escolha... mas parece-me que o próximo feriado em dia útil é só a 25 e 26 de Dezembro. Chatos, pá!

Freak magnet IX

Este não é um bem Freak magnet no sentido freak do termo, é mais para o show, mas para me facilitar a vida e utilizar a secção Freak magnet em todas as suas possibilidades, fica este episódio aqui nesta gaveta.

Um dia hás-de sentir-te numa série de televisão americana para jovens adultos. Hoje foi o dia.

Estava eu a sair de casa para ir ver A Vingança de uma Mulher, quando ao sair da porta do prédio para o jardim, vislumbrei nas portas da traseiras um vulto (vizinho) a quem cumprimentei, seguindo viagem, que foi interrompida no segundo seguinte pois o vulto dissera qualquer coisa. Voltei para trás dois passos e o homem apressou o dele na minha direcção. O tipo queria saber se eu não tinha fichas para a máquina de lavar da lavandaria do prédio, pois ele tinha a roupa a lavar e o ciclo da máquina ficou-se a meio e ele não tinha mais fichas... e a porteira não estava em casa. Eu lamentei o facto de ter máquina de lavar própria e nunca ter recorrido à lavandaria. Ele disse q a casa dele também tinha, mas não funcionava muito bem e que se tinha mudado há pouco tempo para aqui. Maria Calíope não se fez de rogada estendeu o braço, disse o seu nome, apontou para a sua porta e lamentou não ter fichas, mas avançou ter detergente caso ele precisasse (de onde é que me vão sair estas tiradas?!). Ele riu-se, disse o seu nome e que morava no 8º andar.
Eu ainda sugeri ir tocar à Frau Müller, pois sei que faz uso da lavandaria, entretanto como apareceu outro vizinho, eu pus-me a andar.

Não sei se estes 34 anos estão a afectar-me o cérebro, não sei se é o desespero, não sei se são carências afectivas, não sei se são aqueles quase 10 cm de (um) cabelo branco, mas agora até encontro tipos giros com ar simpático e saudável no meu prédio? E com sotaque hoch deutsch? Oh Deus! Qualquer dia estarei a dizer a um tipo qualquer do metro que é o mais giro do vagão.

Alguém se lembra da série Jack and Jill? Não houve um episódio onde eles ficaram trancados na lavandaria?

domingo, 4 de novembro de 2012

60º e 61º momento cultural: cinema português

Depois da euforia ao ver o programa e do desânimo de não conseguir bilhetes para o Tabu, lá fui eu hoje ver dois filmes da Viennale. Filmes portugueses...
Bom a primeira opção foi uma espécie de documentário de Manuel Mozos, sendo que parte do filme era uma entrevista a João Bénard da Costa. Até foi bastante interessante a sequência, tendo em conta que se partiu do pressuposto de no caso de existir qualquer coisa a que se pudesse chamar de cinema português - o que por si era uma dúvida - o que quer que isso fosse era mau, chegando ao fim à conclusão de que o cinema português estava em vias de extinsão. No fim, para além de Manuel Mozos ainda estava o Miguel Gomes (realizador do Tabu e do Querido Mês de Agosto) a responder a perguntas do público. Gosto muito dessa parte pois esclarece-me sempre em relação ao filme. Gostei particularmente e revi-me quando Mozos dizia que em Portugal não se fomenta o gosto pela cultura, nomeadamente pelo cinema português, e que se se perguntar a alguém o que acha sobre cinema português, a pessoa com certeza responderá que não gosta. Mas se se perguntar se ela viu qualquer coisa, ela dirá que não, não viu, mas sabe que não gosta, porque é chato e parado e não sei mais o quê. Revi-me neste vox populi pois devo ter visto dois filmes portugueses em Portugal em 24 anos de vida lá... (Em Viena já lhes perdi a conta, mas hão-de ter sido uns 20 ou 30).


Na sessão da noite, fui ver A Vingança de uma Mulher da Rita de Azevedo Gomes. Que seca! Tudo o que o Mozos disse consubstanciou-se neste filme: muito parado, muito dramático, muito pausado, muito teatral... se as pessoas falassem a uma velocidade normal, o filme poderia ter durado 70 min em vez dos 100 que durou. Os planos arrastavam-se, a mulher idem idem aspas aspas. De certezinha que Rita Azevedo Gomes é discípula de Manoel de Oliveira! Não se perdeu tudo, houve uma personagem daquelas que eu gosto, que lá ia aparecendo narrando os acontecimentos, assim mesmo de guião na mão. E no fim houve uma frase muito interessante "Ai daqueles que não saibam usar a máscara que escolheram!". Tirando, poderia ter passado o meu serão em casa que teria sido melhor aproveitado! É de dizer que houve muita gente a ir embora durante o filme todo e que o senhor duas cadeira ao meu lado adormeceu e ressonou de forma audível...

58º e 59º momento cultural: comédias românticas

Descobri recentemente que é possível ver filmes inteiros no youtube. Perdoem-me a minha ignorância, mas eu sou praticamente info-excluída. E claro que não descobri sozinha, foi uma amiga que me falava das maravilhas de um filme e na sequência do seu discurso mandou-me o link do filme.
E lá vi eu o Feast of Love.
O filme é giro... nada imperdível, mas interessante o suficiente para me fazer rever em algumas personagens (sim tenho um Fernando Pessoa a viver dentro de mim). O papel do Morgan Freeman é muito bom, ou então sou eu que tenho uma queda para aquela voz sábia, que parece ter uma visão panorâmica da vida.

No entanto, quando o filme acabou olhei inevitavelmente para a barra de sugestões à direita e acabei a ver (também por sugestão de uma outra amiga) o P.S. I love you...
Que banhada... se calhar sou eu que estou a tornar-me numa pessoa muito séria, mas não consegui ver o filme como mero entretenimento... só pensava que aquele enredo era uma parvoíce pegada sem qualquer contacto com a realidade, aquele tipo de comédia-romântica-de-sábado-de-tarde que só serve para encher chouriços e que imprime expectativas infundadas no cérebro. Meg Ryan, volta, estás perdoada!

sábado, 3 de novembro de 2012

Freak magnet VIII

Estava eu quietinha e sossegada à espera do eléctrico para ir para a Ópera, quando um senhor, que tinha passado por mim e se posto à espera ao meu lado, me aborda:

Senhor: I like your hat!
Calíope: Oh! Thank you (sorrindo com a surpresa)
Senhor: I was looking at you and I like your style.
Caliope: Thank you! (continuando a sorrir e ainda mais surpresa e a pensar porque é que estávamos a falar em inglês)
Senhor: The hat is really nice...
Calíope: Yes, I think so! (a pensar onde tinha comprado o chapéu, no que é que tinha vestido e onde é que aquela conversa iria acabar)

Senhor: Your English is quite good!
Edgar Degas, Woman in a blue hat
Calíope: Ah! Thank you! (a pensar se tinha dito mais alguma palavra além de "thank you", mas que para um verdadeiro connesseur a minha imaculada pronúncia do [θ] era mais significativa do que um discurso de três horas).

Entretanto chegou o meu eléctrico e eu segui viagem, mas claro que fiquei a saber que para além de ter um estilo próprio, tenho um estilo estiloso* com o selo de qualidade de pessoas com vasto conhecimento de vida e do mundo. E face a este selo de qualidade talvez o senhor esperasse um bocadinho mais de mim, mas o quê? Não íamos tornarmo-nos nos melhores amigos, pois não? Podia ter trocado mais dois dedos de conversa com ele, mas não tive essa presença de espírito, pois no meu cérebro ecoavam sirenes e luzes néon a dizer "clube do Inatel" e isso significa que eu devo ficar alerta. Além do que já tive a minha dose de sexagenários na semana passada... e nus! o que redobra a dose. Por outro lado, acho sempre digno e louvável pessoas que abordem outras para dizer coisas simpáticas. Quantas vezes me apeteceu dizer "És o tipo mais giro do metro!", mas não, eu não os tenho no sítio.

*Antes que me perguntem qual era a indumentária do estilo estiloso (sim, porque há imensa interacção entre Maria Calíope e os estimados leitores na caixa de comentários), posso avançar já: um chapéu de feltro azul escuro ao bom estilo mafioso, um casaco de fazenda azul escuro 3/4 com um bom corte. Collants, cachecol e pochette azul turquesa, botas pretas de atacadores. Também tinha um vestido de malha fininha cinzenta, mas acredito que o senhor não reparou nesse pormenor!

57º momento cultural: Romeu e Julieta

Ópera de Paris - Romeu e Julieta
Não consegui ir ver o Quebra-Nozes na semana passada porque não quis ir para a fila e para me compensar fui ver ontem o Romeu e Julieta. Já o tinha visto duas vezes, a cena do baile é impressionante e a banda sonora de Prokofiev torna-a magnânima. (Vejam o vídeo aí em cima, infelizmente devido aos grandes planos não dá para ver a cena de forma panorâmica, que a meu ver se assemelha muito a um tabuleiro de xadrez. É genial. Por outro lado, acho que o guarda-roupa era muito mais rico do que este me aparenta ser). Poderia vê-la e ouvi-la outras mil vezes que não me imporaria. Desta feita, estive cerca de 30 a 40 minutos na fila para comprar o bilhete, mas mesmo assim consegui arranjar um bom lugar. Estava a contar ir-me embora no final do segundo acto. Afinal de contas no terceiro acto eles morrem e por isso para os ver a cambalear no palco para que a morte possa ter acção e ser estética mais valia vir para casa. No entanto, a cena que eu queria ver foi logo no primeiro acto, por isso no primeiro intervalo e ao fim de uma hora de espectáculo acabei por me vir embora. Acho que estou a ficar excêntrica!

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Freak magnet VII

Os empregrados de mesa em Viena não primam pela simpatia. Faz parte do seu modus operandi, modus vivendi, etc, por isso qualquer um que saia desse modelito faz-se notar. Ontem fui jantar com uma amiga búlgara (o tal jantar do ganso) e o empregado que nos servia desfazia-se em sorrisos e amabilidade. Nós estranhámos, mas não perdemos um minuto sequer da nossa animada cavaqueira para comentar o assunto. No entanto, já no final da refeição, o senhor pergunta-nos de onde éramos e se estávamos a estudar em Viena. Ao dizer que eu sou portuguesa, o homem respondeu com "Fala português?" e apontando para o ganso saiu-se com "Gostoso?" e seguiu a sua vida. O meu comentário para a minha amiga é que ele falava a variante brasileira, mas lá continuámos a conversa. Nós não estávamos aborrecidas, não houve momentos mortos, nem parámos de conversar a noite toda... mas o homem voltou à carga... Não só nos interrompeu, como em 5 minutos ficámos a saber da vida toda dele: que tinha sido casado com uma brasileira, que tem uma casa em Florianópolis, que antes trabalhava em cruzeiros, que viveu uns tempos na Ásia e no Brasil e que quando se reformasse queria ir para a casa que lá tem e que se a gente quisesse poderia ir lá visitá-lo...
Enquanto ele contava isto tudo, eu pensava como era possível aqui na Áustria um empregado ter uma quinta no Brasil, practicamente na praia, com direito a bungalows e cavalos.
Entretanto a minha amiga lembrava-se daquele belo momento em que Javier Bardem abeira-se da mesa de Vicky e Cristina em Barcelona, convidando-as a ir a Toledo, porque as tinha achado bonitas e interessantes e queria conhecê-las melhor e fazer amor com elas....
Bom, a diferença é que o nosso wannabe amigo Peter não era o Javier Bardem...
Nós acabámos as bebidas, pagámos e desaparecemos em três tempos, mas claro que prometemos voltar!

A época do freak está aberta!

Blow me...

Há pouco quando fui ao youtube buscar o link da Blow me, aproveitei para ver o vídeo (vejam!) e conferir a letra. Eu tenho um ouvido péssimo, percebo sempre muito mal letras de músicas o que não me impede de todo de a cantar... Mas então, lá fui ver se o texto tinha alguma coisa em comum com o que eu cantava e, pasme-se o digníssimo leitor, não é que ela canta a minha vida?! Confesso que acho entediante quem posta letras de música e bastante adolescente ler nesses textos a sua vida, mas não sei como dar a volta ao bico deste prego.
Eu andei neste hin und her tanto tempo e nem sei porquê...
Custou, mas a porta fechou-se! É ler para crer!

White knuckles and sweaty palms from hanging on too tight
Clenched shut jaw, I've got another headache again tonight

Eyes on fire, eyes on fire, and they burn from all the tears
I've been crying
, I've been crying, I've been dying over you
Tie a knot in the rope, tryin' to hold, tryin' to hold,
But there's nothing to grasp so I let go

I think I've finally had enough, 

I think I maybe think too much
I think this might be it for us (blow me one last kiss)
You think I'm just too serious, I think you're full of shit
My head is spinning so (blow me one last kiss)

Just when it can't get worse, I've had a shit day (NO!)

Have you had a shit day? (NO!), we've had a shit day (NO!)

I think that life's too short for this, I want back my ignorance and bliss
I think I've had enough of this, blow me one last kiss.

I won't miss all of the fighting that we always did,
Take it in, I mean what I say when I say there is nothing left
No more sick whiskey dick, no more battles for me
You'll be calling a trick, 'cause you'll no longer sleep

I'll dress nice, I'll look good, I'll go dancing alone
I will laugh, I'll get drunk, I'll take somebody home

I will do what I please, anything that I want

I will breathe, I will breathe, I won't worry at all
You will pay for your sins, you'll be sorry my dear
All the lies, all the why's, will all be crystal clear

Deus existe! Deus existe!

Qual é a probabilidade da emissão da rádio se enganar e passar a mesma música duas vezes de seguida? Sendo que essa música era a minha preferida do momento: Blow me da Pink.

Qual é a probabilidade de voltar ter as abençoadas mãos do Benjamin no meu lombo?

Isto tudo no espaço de pouco mais de hora e meia. O pormenor de ter sido entre as 6:00 e as 7:30 mostra como eu estou sempre alerta e atenta a qualquer revelação divina... ou então morri e o céu tem massagens e banda sonora!

Com tudo isto deu-se um milagre em cadeia: por volta das 8:30 já estava aqui no escritório (com cara de sono e marca do buraco da marquesa na minha cara).
A ver se de noite há bailado! Alegria! Alegria!

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Fruta da época

Se há coisa de que gosto aqui na Áustria é da sazonalidade da comida e da bebida. Em Novembro e pelo S. Martinho come-se ganso, Martinigansl para ser mais precisa, acompanhado por Knödeln de batata e couve roxa. E eu reguei isto tudo com um Sauvignon Blanc divinal.
Foi o prato da noite e não poderia pedir mais!

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

56º momento cultural: Um lugar dentro de nós

Comecei a ler este livro quando voltei de Lisboa em Setembro, mas ora me perdia com outras leituras, ora me irritava com a prosa do Gonçalo Cadilhe... e por isso demorou esta imensidão de tempo para terminar.
Eu desconhecia o homem por completo. O nome não me dizia rigorosamente nada. Face à minha ignorância, fui presenteada com um livro. Quando acabei de o ler, fui queixar-me à amiga que mo deu que o homem escreve mal... ou pior, escreve como fala, apesar de nunca o ter ouvido falar.
Por outro lado, o conteúdo cativou-me, e claro que me iria cativar, não apenas pelos cenários serem aqui e ali no mundo, mas por algumas (poucas) ideias muito bem expressas, conceitos novos para mim e aqueles ovos de Colombo, tão óbvios, tão óbvios que ninguém chega lá.
Saliento apenas o conceito de dromomania, que emoldura tão bem a minha vida, que eu nem sequer poderia imaginar que havia palavra para isso. Dromamania é ter um bicho-carpinteiro que nos obriga a viajar,a dar uma volta pelo mundo, não ficar quieto até atravessar uma fronteira para depois voltar feliz para casa. É ser uma Maria Calíope com urgência der ver coisas novas, de respirar novos ares, de espairecer por outras bandas... Uma hora ou duas antes de ler isso, estava eu perdida no site da companhia aérea daqui a pensar se queria ir para Istambul ou Sófia no princípio da Primavera, pois para as capitais escandinavas é melhor esperar por Maio. (Isto tudo com três viagens marcadas até Fevereiro).