Tenho muitos alunos impacientes, especialmente este ano calharam-me duas senhoras que julgam não saber nada de português. Eu pacientemente explico que elas demoram o tempo que precisam, mas que conseguem expressar-se. Precisam de tempo para toda a ginástica gramatical que uma língua requer, mas que no fim são bem sucedidas, que há um ano não poderíamos ter uma conversa em português e que agora conseguimos, a um ritmo moderado, mas eu já pouco digo em alemão e elas entendem. A isso é que devem prestar atenção, não às dificuldades que o processo implica. Elas não se convencem e acham que o português delas é tudo menos natural e orgânico... eu rio-me e garanto-lhes que estão no bom caminho.
Lembrei-me destas minhas alunas em específico hoje numa aula de dança, mais concretamente lady styling de kizomba. A minha postura na dança, apesar dos meus incríveis progressos, continua a não ser muito satisfatória. Preciso ser constantemente lembrada acerca da postura correcta (Alfa dixit!). Por isso achei que fazer uma aula para corrigir esses vícios poderia ser uma boa ideia. E foi, mas também me fez lembrar de que deveria ter prestado mais atenção há 35 anos quando fiz ballett e que não devo ter levado a sério a mão cheia de anos de ginástica rítmica ou acrobática ou o que era aquilo. Portanto, não estava à espera que em 2h horas corrigisse uma coluna ondulada há 40 anos. Em pé ainda consigo disfarçar um bocado, mas sentada é para esquecer. Pareço um boneco michelin sem coluna. Não consigo fazer um ângulo de 90º com pernas e costas... o melhor que sai é qualquer coisa abaulada. Fizemos muitos exercícios e eu esforcei-me imenso, mas manter as costas direitas para mim é mesmo um castigo. No fim, ensaiamos uma coreografia. Se aliarmos ao problema de postura, a minha falta de memória crónica, deduzirá o querido leitor que o sucesso ficou a milhas do meu desempenho. Ao ver-me ao espelho, via um trambolho mecânico, wanna-be-bailarina, com movimentos muito angulares, pouco suaves e passos de cavalo. Em compensação, a professora (gira, gira como tudo) ali a deslizar pela sala em cima de uns saltos de 10 cm, com movimentos redondos, elegantes e tudo muito orgânico e estético. Foi nesse momento que me lembrei das minhas alunas. Elas falam bem, apesar das dificuldades de principiantes, mas nunca na vida seriam confundidas com uma native-speaker. É como eu... por mais que me esforce não há maneira de sair do A1 das danças.