sábado, 7 de julho de 2018

E quando a experiência nos boicota a vida?

Sou formada em Literatura mas é raro dar aulas de literatura. Gosto de ler, gosto de fruir as palavras, as combinações de palavras, as construções frásicas. Sempre adorei figuras de estilo e tudo aquilo que se pode fazer com palavras. Dizer uma coisa e querer dizer o seu contrário, recorrer a imagens, repetições, combinações de sons para evidenciar qualquer coisa. É isso que me fascina nas palavras. Interpretar texto é um exercício que me é caro: fazer com que o autor diga aquilo que eu acho que ele quer dizer, ou seja, pôr nas palavras, pensamentos e intenções do autor aquilo que eu com a minha bagagem cultural, intelectual, emocional, etc. leio nas palavras dele. É um jogo, é um desafio, mas nunca uma ciência exacta. Nunca gostei muito de correntes literárias e de tentar enfiar autores em movimentos, precisamente pela liberdade de leitura de cada um.
Apercebi-me que este tipo de exercício apoderou-se da minha vida de forma inconsciente. Eu vejo, leio e interpreto os outros à luz da minha bagagem e por conseguir com relativa destreza mental articular várias linhas, rapidamente teço teias que entrelaçam coisas, situações, eventos e pessoas que pouco ou nada se relacionam entre si, mas que a minha habilidade cognitiva põe em interacção.
De repente fui apanhada nesta teia. Deixei de ser a tecelã, mas a vítima da minha própria artimanha... Felizmente fui alertada a tempo do novelo que comecei a enrolar e a custo estou a tentar desfazer nós e a arrematar costuras. E costura arrematada, está arrematada, nada de pegar nela outra vez. Parecendo que não, eu sou melhor a ziguezaguear do que a fazer bordados. 

4 comentários:

Boop disse...

Não estando no teu meio atrevo-me a dizer que é impossível não fazer o que naturalmente fazes.
Ler é emprestar parte de nós à narrativa. Projectamo-nos inevitavelmente. A única coisa que podemos fazer é estar cientes de que isso acontece para assim não ficarmos dogmáticos e fechados.
E perceber que a riqueza da discussão de uma obra estará exactamente no que outras pessoas, com outras vivências, viram que nós não vimos.
Não haverá leituras certas.
E quando um autor publica uma obra... deixa de a possuir, fica sujeita a múltiplas leituras e interpretações.
Mas é tu a licenciada na área....
:)

Calíope disse...

Boop, tens toda a razão e eu subscrevo tudo o que dizes, mas no caso, a literatura serviu-me apenas de metáfora para outras leituras da e na minha vida.

Boop disse...

Então mais segura estou da minha posição!
:)
O desafio é ter consciência disso... E alguma abertura para as outras leituras possíveis.

Calíope disse...

Não só ter consciência, mas não deixar-me condicionar e acima de tudo sabotar a minha própria felicidade.