domingo, 11 de março de 2018

378º momento cultural: Call me by your name

Mais uma quinzena e mais um filme. Curioso que este ano ainda não consegui ir ao cinema sozinha. Estranhamente - para o que era o meu padrão - tenho ido sempre ao cinema acompanhada, o que não é nada mau, uma vez que gosto imenso de discutir o filme visto e comparar pontos-de-vista. Fui ver Call me by your name de Luca Guadagnino. O filme passa-se algures no norte de Itália, em meados dos anos 80. Apesar do cenário ser decididamente italiano, a casa de campo, a vila e todas aquelas pedras milenares, a maior parte do filme foi falado em inglês e francês, havendo pontualmente uma ou outra intervenção em italiano. A versão que fui ver era legendada (aqui na Áustria não é assim tão evidente que os filmes tenham legendas) por isso estranhei e demorei a habituar-me a ter legendas em inglês E em alemão... No início, estava a tentar ler tudo, o que obviamente não funcionou - até ao momento em que decidi só ler uma das versões - até porque entendia na maior parte a maior parte dos diálogos sem a legenda. Bom, ultrapassada esta parte técnica, vamos lá ao sumo!
O filme é manifestamente dos anos 80 e quem não teve um walkman ou usou aquelas combinações de roupa pavorosa (que infelizmente está a voltar a ser moda) que atire a primeira pedra! É engraçado porque uma pessoa ao ver aqueles trajes, os cabelos e certos detalhes é logo transportada para os anos 80. A personagem principal, Elio, um miúdo de 17 anos, entretido com os seus livros, a sua música e os seus amigos, passa um Verão como tantos outros na casa de campo com os pais. No entanto, há sempre mais gente em casa, para além da governanta/empregada, há amigos, vizinhos, colegas, etc. O ambiente é bastante familiar e agradável. Entre essas pessoas todas, chega também Oliver, um americano que vem trabalhar (?) com o pai de Elio - arqueólogo.
Apesar da diferença de idades a proximidade entre Elio e Oliver vai crescendo. E as dúvidas adolescentes de Elio vão sendo cada vez mais evidentes, tentando ele explorá-las ao sabor das marés. Oliver afigura-se-lhe mais apetecível do que a namorada e quando dá por si está apaixonado por Oliver... e é retribuído. Claro que o romance estival está condenado à partida pelo juiz do tempo, era claro como água. E a cena na estação é tão bonita. (Pormenor sem interesse nenhum: Adorei o comboio e aquela porta à laia de cofre.) É um adeus sem volta e os dois sabiam disso e é tão doloroso. Um espectador sentimentalóide, como eu, já estava a sofrer com o Elio naquele desespero de sentir a areia a fugir-lhe pelos dedos e ele sem poder fechar a mão. E de repente ele volta a ser um menino pequeno ao ligar à mãe para o ir buscar. E aquela cara de choro, olhos marejados de lágrimas sem querer soluçar a caminho de casa no carro da mãe foi-me tão familiar.
Mas o melhor ficou para o fim. Já durante o filme todo já me questionava acerca do papel daqueles pais, sempre tão animados, bem-dispostos, compreensivos e até cúmplices e de repente aparece o pai com um discurso maravilhoso, sem se imiscuir nem julgar as opções do filho. De repente aquele pai diz ao filho aquilo que todos os pais deviam dizer a todos os filhos. A vida é deles (filhos) e eles (pais) nunca vão deixar de ser pais e gostar dos filhos, quaisquer que sejam as suas opções, que as coisas são como são e têm de ser vividas. Bom, acho que foi mais ou menos isso que ele disse.

Gostei bastante do filme e consigo imaginar que não tenha levado o Óscar de melhor filme, pois seria dois filmes sobre questões homossexuais em anos seguintes e se calhar o mundo não está preparado para isso. Em breve, espero ver o Shape of Water e logo farei um comentário mais fundamentado. Mas apercebi-me que ver cenas entre homens não é para mim... e foi tudo muito lindo e muito erótico e muito natural e muito bem filmado, mas ... well, no thanks, não preciso de ver isto. Por outro lado, o miúdo era tão giro que me pareceu uma espécie de fusão de Davide de Miguel Ângelo e uma boys band, o que bate certo, pois nos anos 80 era o que eu mais gostava: boys bands e tinha todo um imaginário greco-romano! E aquela última cena com a camisa de padrão duvidoso e gola alta por baixo e o walkman bateu mesmo certo. O fim não poderia ter sido melhor com ele a olhar para a lareira num misto de emoções que contagiam, comovem o espectador.
Parece que em breve haverá uma sequela... vou ver, claro!

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