quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

A vida num tabuleiro de xadrez ou 15 anos na Áustria

Faz hoje 15 dias que fui viver para a Áustria. Já devo ter repetido isto por aqui várias vezes, 30kg de bagagem para 6 meses de contrato. O contrato terminou, mas eu gostei tanto do xadrez da cidade, fossem as linhas ortogonais da cidade, fosse o combinado de pessoas e vivências que comecei a acumular, fosse a centralidade do país, que resolvi ficar e tentar a minha sorte. Até hoje continuam a perguntar-me quanto tempo pretendo ficar em Viena e a resposta, desde esse dia até hoje, nunca mudou. Enquanto gostar de lá viver não tenho por que mudar. E gosto tanto e mal consigo explicar porquê. Os anos foram passando sem que eu fosse dando conta deles, mas fui dando pequenos mas seguros passos numa carreira sólida, numa vida cultural bem recheada, em muitas experiências fabulosas, resumindo numa vida de luxo, por vezes excêntrica, com a qual nunca sonhei. 15 anos de Viena deu para fazer tanta coisa, deu para crescer tanto, deu para me tornar numa pessoa mais rica a todos os níveis, que por vezes já nem me lembro como era antes.

Lembrei-me de recorrer a um tabuleiro de xadrez para ilustrar este tempo.

Peão: Continuo a dizer que foram os transportes públicos de Viena que me fizeram ficar, mas na verdade, só me apercebo do quanto ando a pé, quando volto a Lisboa. Para além de andar, em Viena comecei a dançar de forma mais ou menos regrada: tango, dança do ventre e kizomba continuam a fazer-me rodopiar por qualquer pista! Ando, danço e corro - sobretudo para apanhar o metro e atrás do vento!

Torre: Acredito na força do trabalho. Sou workaholic e não vejo isso como sendo algo negativo. Em Viena descobri um talento de dar aulas, contar histórias e falar com pessoas. Tive a sorte de conseguir ingressar no mundo universitário. Também descobri outras abordagens à língua e consegui capitalizá-las. Gosto mesmo muito do que faço e eu sem os meus trabalhos não seria feliz.

Cavalo: 10 dias depois de ter chegado a Viena em 2003 enfiei-me num interrail com uma amiga e a partir daí não parei. Agora vou para perto e para longe, com ou sem companhia, a trabalho ou em lazer. Nos últimos 15 anos visitei 46 países, se não falhei as contas. Costumo dizer que trabalho para sustentar as minhas viagens e não deve andar muito longe disso.

Bispo: A religiosidade na Áustria marca o calendário e paga impostos e eu não acredito na compra de lugares no céu (além de que o meu lugarito quentinho no Inverno está mais do que garantido). Julgo que a crença é uma decisão pessoal e privada, por isso não aceito que o Estado me pergunte em que é que eu creio. Acredito, no entanto, de forma praticamente cega no meu pai e na minha mãe, a distância só nos aproximou. Eles adoram Viena e a certa altura temi que quisessem mudar-se para lá! Estando longe, foi/é fundamental para mim ter esta rede de segurança. Sempre esteve lá e nunca me falhou.

Rei: Foi tanta gente que passou pela minha vida, que se quisesse enumerá-las rapidamente cairia no erro de me esquecer de alguém. Nos meus vários trabalhos, nas minhas várias actividades de lazer, nas redes sociais, amigos de amigos, vizinhos e aquelas pessoas-random que eu conheço em situações completamente inusitadas. Gosto muito da minha vida em Viena também pela variedade de pessoas com que a vida me presenteou. Aprendi que o caminho das pessoas nem sempre se mantém paralelo ao meu, mas as coisas têm o seu tempo e há caminhos que se voltam a cruzar.

Rainha: Sou eu, claro! Estou de parabéns - perdoe-me a falta de modéstia, querido leitor - pela vida que construí em Viena. Cheguei há quinze anos sem nada nem ninguém e depois deste tempo tenho uma vida fabulosa, que longe de ser perfeita, é-me muito querida, confortável e às vezes até excêntrica!



Xeque-mate - ainda não sei jogar xadrez, mas continuo a achar que daria uma jogadora exímia!

Mas agora, para já vou comemorar com os meus amigos lisboetas :)

3 comentários:

Boop disse...

15 dias/15 anos...
terá sido um acto falho ou intencionado?

Fiquei com inveja do cavalo!
;)

Anónimo disse...

Parabéns! Que venham mais 15 ainda mais recheados de coisas boas.
Pessoalmente acho óptimo víveres na Áustria pois permitiu-me conhecer-te. E voltaremos a cruzar-nos brevemente! Beijo com saudade!!

Calíope disse...

Boop, foi completamente sem querer. Mas que passou num instante foi! Não vale a pena ter inveja de nada. Há um lado menos bom de viver cá, vários até, mas em dia festivo não valia a pena enumerá-los.

BcS: Espero que siiiimmmmmmm :) A ver se agora de volta às minhas rotinas normais consigo finalmente te ligar.