terça-feira, 16 de janeiro de 2018

16 de Janeiro de 2017

Marquei um voo para o dia seguinte, 15. Só ida. Nunca tinha visto a minha mãe naquele desespero. O meu pai piorava de dia para dia. Até a minha irmã tinha voltado a ir dormir lá para casa. Não fazia sentido eu estar aqui e fui para Lisboa no dia seguinte, apavorada com a ideia de o meu pai morrer e eu não estar lá e de ninguém me dizer nada até eu chegar. Tinha regressado de Lisboa uns dias antes, duas semanas em que mal saí de casa, tentando aligeirar a tarefa hercúlea da minha mãe de cuidar do meu pai.
Cheguei a casa e o meu pai estava lá, deitado, imóvel, angular, com os olhos entreabertos, ainda mais magro do que 10 dias antes, já não falava, mas supostamente ouvia tudo. Eu agarrei-lhe na mão e disse que estava ali com ele, que já tinha chegado. E apesar daquele quadro miserável, eu fiquei feliz por lá estar e tenho a certeza que ele também.
Nessa noite, a minha irmã voltou para casa dela e eu ocupei o sofá vago. Estávamos todos a dormir na sala. Nem me passou pela cabeça ir dormir para o meu quarto. A minha mãe explicou que tinha de ficar uma luz de presença acesa, pois as pessoas em estado terminal temem o escuro. E ela sentou-se no banco de madeira ao lado da cama do meu pai, dando-lhe a mão. Só ela é que não dava conta de como estava extenuada. Eu disse-lhe que fosse para o sofá dela, que eu ficava ali com o pai e nem sei como a consegui convencer. Trocámos de postos. Ao fim de uns minutos sentada no banco, já me doía o rabo e não sabia bem em que posição me pôr. O meu pai estava tão magro e mal se mexia que mal ocupava metade da cama e num golpe de felicidade, ocorreu-me puxar um pouco a cama articuladada para eu poder deitar-me ali entre a parede e o meu pai. Havia espaço suficiente para mim de lado e com certeza seria mais confortável que o banco de madeira. Dito e feito. A minha mãe dormia profundamente que nem reparou, mas às tantas chamou por mim, não me vendo nem no sofá nem no banco e eu lá levantei a cabeça do outro lado do meu pai. Dormi ali meia dúzia de horas tranquila ao lado dele e ele com certeza descansado por me sentir ali perto.
No dia seguinte - dia 16 - tínhamos de tratar da documentação da mercedonga. O meu pai tinha deixado tudo preparado e nós (eu e a minha irmã) tínhamos de ir ao conservatório. Fomos pela hora do almoço, tratámos do que tínhamos a tratar e a minha irmã seguiu para o escritório, deixando-me primeiro em casa pelas 15:30. Só me lembro de estar toda a gente a dizer-me que comesse qualquer coisa. Eu ainda não tinha almoçado e fui aquecer um bocado de lasanha que estava na cozinha. Voltei para a sala com um tabuleiro e sentei-me no meu sofá. Não sei se cheguei a pôr uma garfada à boca e vi o meu pai a franzir a testa. A minha irmã tinha-me dito, o que o médico lhes dissera, qualquer movimento facial ou mudança de ritmo de respiração poderia ser sinal de desconforto. Eu saltei do sofá e perguntei ao meu pai o que tinha, do que precisava (como se ele pudesse falar) e disse-lhe que ia chamar a minha mãe. Numa fracção de segundos estava a minha mãe e eu abeiradas do meu pai... e só me lembro de ouvir de trás a minha tia a dizer "ele já não está a respirar" para desatarmos todas num pranto inconsolável. Apesar do choro todo, para mim o meu pai ainda estava vivo e a respirar... mas a enfermeira logo de seguida não deixou espaço para devaneios. Liguei à minha irmã, para que voltasse de imediato para casa.


(Jamais me perdoaria se eu tivesse ficado em Viena).

5 comentários:

Boop disse...

Um beijo Caliope.

Calíope disse...

:)

Boop disse...

... e hoje faz anos o meu pai...

Ana A. disse...

Um ano para escreveres sobre um sofrimento que nem sempre é visível.
Um abraço virtual e à distância.

Calíope disse...

Beijinho às duas!