segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

374º momento cultural: Taboo Teheran

Não me posso queixar nada desta recta final de cinema do ano. Um filme melhor do que o outro, que só faz com que uma apeteça assentar arraiais no cinema e ficar lá a consumir tudo. Taboo Teheran é uma produção austro-alemã curiosíssima. As associações ora se estranham ora andam de mãos dadas, tabu e Teerão é logo a primeira, vou passar por cima da relação amor-ódio entre Áustria e Alemanha, e depois foi a construção do filme decalcando pessoas (actores) reais para a banda desenhada. O filme é de animação - a imagem é tão bonita quanto poderosa - mas longe de ser para crianças.

(Boop - vai lá fazer outra coisa! ;))

O enredo principal cruza a vida de várias mulheres, com diferentes idades, histórias e posturas de vida. Por arrasto, ainda há um músico, um filho-mudo e mais umas quantas personagens de apoio (um amigo, o marido, o porteiro, etc.). 
A primeira cena é mesmo uma entrada a pés juntos (vou contar! Spoiler alert!), que uma pessoa como eu que ainda se está a habituar ao filme, à animação, à língua persa, às legendas em alemão e de repente vê um taxista a circular numa rua de prostitutas, sendo que uma entra no carro, discutem rapidamente o preço e ela começa fazer-lhe um blow job enquanto ele continua a conduzir e se escandaliza por ver a páginas tantas a filha ao lado de um indivíduo desconhecido na rua....
Estava dado o mote: sexo e a relação hipócrita que se vive (?) na actualidade iraniana.
Ela, a prostituta, é a personagem principal da história e na verdade entre aquela gente toda quem tem minimamente a vida controlada. Marido toxico-dependente preso e um filho mudo para criar. Ela faz o que pode, mas é sem dúvida uma mulher de armas.
A miúda que se enrola com o músico na casa-de-banho de uma discoteca e que por esse motivo o obriga a pagar uma cirurgia de re-virginização pois supostamente ela vai casar necessariamente virgem na semana a seguir.
A rapariga que descobre que está grávida para grande júbilo da família do marido, mas que queria ser professora e não pode trabalhar porque o marido não deixa.
Os papéis masculinos são todos tão hipócritas, até o do músico, pois pela frente é a lei, os bons costumes, a moral, a religião e por trás fazem tudo e mais alguma coisa - desde o velhote tuberculoso ao iman do tribunal, passando por uma mão cheia de outras personagens.
O filme está muito bem construído e todas as personagens acabam por se encontrar numa esquina da vida, mas infelizmente é difícil escolher qual a situação pior... Não sei se me chocou mais da miúda que tinha sido vendida ou o enforcamento público com toda a gente a tirar fotos...
O fim não é mais triste do que na verdade o filme todo, mas deixa muitas questões no ar. Um filme que com certeza não vai passar no Irão, mas que levanta muitas pontas de muitos véus. Não acredito que os muçulmanos sejam todos tarados, drogados, corruptos, mas que há muita coisa forçosamente errada quando praticamente se proibe tudo e mais alguma coisa. 
Julgo que o filme ganhou muito em ser em animação, talvez com actores normais não tivesse tanto impacto, não sei. Mas adorei a expressividade das personagens... e este miúdo era adorável!

2 comentários:

Boop disse...

Lido.
:)
Um filme que provavelmente não vai passar por aqui.
E só a tua descrição foi já um murro no estômago!

Veria-o!

Calíope disse...

Ahahahahahah!

Talvez passe em Lisboa em algum festival de cinema... Vale muito a pena. (Pode ser parvo, mas eu tinha imensa curiosidade de ir ao Irão e de repente perdia-a toda).