quinta-feira, 19 de outubro de 2017

A última coca-cola do deserto

O deserto é daquelas minhas fantasias mais antigas. Imagino o deserto como um espaço de tudo e nada. A imensidão de vazio. E isso fascina-me. Quando estive efectivamente num deserto não pude cumprovar todas as minhas ideias, mas aquele encantamento não se esvaneceu.
Nunca me tinha apercebido que qualquer coisa tão extrema me pudesse seduzir, na verdade sou uma pessoa bastante moderada e não tenho apreço especial por pólos nem por qualquer tipo de radicalismo. O deserto escapou-se-me na peneira dos meus gostos e foi deixando um rasto na minha vida do qual só agora me apercebi.
Durante anos e em diferentes fases da minha vida, identifiquei pessoas que muito me agradaram e que, na minha perspectiva, muito se compatibilizavam com as minhas medidas. A raridade dessas ocasiões fazia-me tomar medidas excepcionais. Um dia não são dias... e pessoas deste calibre não se podem desdenhar. Sem ter muita consciência desse facto, coloquei-lhes o selo da última coca-cola do deserto, e de forma ainda mais inconsciente sujeitei-me e condicionei-me, considerando tratar-se de um bem maior, pelo qual valia o passo atrás para os dois à frente no momento seguinte. O momento seguinte que nunca chegou e os passos atrás que se foram acumulando.
Consigo olhar para trás, reconhecer a minha ingenuidade e assumir as minhas responsabilidades, mas só agora consigo ver os erros que cometi. Não há coca-colas no deserto... e se houver, não é só uma! A concentração num único recurso fez-me agarrar-me a ele com unhas e dentes, não considerando sequer a possibilidade de poder haver mais recursos a explorar. A partir daí tudo tinha para correr mal.
Agora tudo é diferente e dispersar a minha atenção é meio caminho andado para conseguir avançar. Afinal, a concorrência sempre fez bem à lei do mercado.

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