quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Segundas oportunidades

Chapéu preto ligeiramente descaído para a direita, blazer em cabedal preto, camisa branca abotoada até ao último botão, oculto por um generoso laçarote preto de cetim, saia preta travada, collants pretos opacos e mocassins em verniz com uma parte em camurça. Bigode bem desenhado, barba qb e uma argola com um ligeiro rendilhado na parte central e inferior do nariz. Ninguém que se vista assim passa desapercebido e a mim captou-me logo a atenção. Um estilo admirável por ser simultaneamente tão cool, tão sóbrio e tão improvável. Não conheço muitos homens com eles no sítio para usarem uma saia. Muito menos homens a quem uma saia caia tão bem. (Ok, mera especulação, pois nunca vi amigo meu nenhum de saia).
Vi-o no aeroporto de Viena e fiquei a observá-lo. (Lembrei-me logo deste episódio). Quando o vi a entrar para o meu voo para Estocolmo, ocorreu-me que tinha de lhe congratular o estilo. Lembre-se o querido leitor que Maria Calíope tem aquele desejo antigo de passar um bilhetinho a alguém com a mensagem “És o gajo mais fixe do metro” saindo no momento em que as portas fechassem. De há uns anos a esta parte, Maria Calíope tem-se esforçado por dizer verbalmente quando algo lhe agrada e este tipo tinha tudo para merecer todos os elogios... Portanto, só faltava juntar coragem e abordar o indivíduo. Inacreditavelmente, o tipo não só chegou a Estocolmo no mesmo avião, como fomos os dois no mesmo autocarro para a cidade. Uma pessoa com este look deve estar cansada de ser abordada por comentários mais ou menos louváveis e chegando a Estocolmo e entre portas giratórias perdi-lhe o paradeiro, perdi o momento e perdi a minha oportunidade.
Hoje de regresso a Viena, saí da Universidade a correr com medo de estar a estimar mal o tempo para o meu voo e fui à procura do autocarro que me levasse ao aeroporto. Cheguei, subi, sentei-me e de repente vejo o chapéu descaído para a direita, a saia travada, o blazer em pele e o laçarote… Maria Calíope nem queria acreditar na coincidência do tipo estar precisamente no mesmo autocarro do que ela. Se tivéssemos combinado, nunca teria sido tão fácil. Mesmo dia, mesma hora... o mesmo autocarro e o mesmo voo (e diga-se que há autocarros de 10 em 10 minutos e 5 voos diários). Não faço ideia se ele deu conta da minha presença ou não, mas tive cerca de meia hora para engendrar um plano, sem o perder de vista. A vida resolveu dar-me uma segunda oportunidade e quem sou eu para a recusar?
Chegados ao aeroporto, saídos do autocarro, não tive meias medidas: “Vais para Viena? Acho que viemos no mesmo voo!” O gelo estava quebrado e resultou numa amena cavaqueira de mais de duas horas. Tínhamos os dois chegado cedíssimo ao aeroporto por não saber bem como estimar o tempo de transporte entre a cidade e Arlanda. Disse-lhe obviamente que tinha gostado bastante daquele estilo dele, mas a conversa teve corpo noutros temas. Na semana passada nem tinha reparado no verniz preto nas unhas e entre o despe e veste do detector de metais vi pulseiras, correntes e entrevi algumas tatuagens.
Já em Viena e muita conversa depois, descobrimos que ele é amigo de um ex-aluno meu e ele lá me explicou as suas opções estéticas, que têm mais a ver com comodidade e sentido prático do que um statement. Ainda perguntou se eu não queria ir comer qualquer coisa e eu chutei para o fim-de-semana...

Realmente, Maria Calíope is back on track, na mó de cima, a aproveitar janelas de oportunidades que se apresentam no seu radar e a conhecer homens com chapéus em circuitos aéreos (Viena-Riga e Lisboa-Santiago! O mundo faz sentido de novo! Gut so!

4 comentários:

Boop disse...

Dá-lhe!
:)

Calíope disse...

:) não é o que estás a pensar, Boop.

Boop disse...

Estava apenas a invejar a tua capacidade de meter conversa com um estranho interessante! :)
Sem outras insinuações.

Calíope disse...

Ok, não consegui fazer essa leitura ao "dá-lhe". Nada a invejar, se formos rigorosas, demorei uma semana para conseguir dirigir-me a ele e articular palavras. Tem piada que no fim, ele disse que foi pena não termos falado logo na viagem de ida, pois estivemos os dois uma semana inteirinha em Estocolmo e poderíamos ter combinado qualquer coisa. Pronto, fica a lição, para uma próxima eventualidade.