quinta-feira, 6 de julho de 2017

353º momento cultural: Cemitério de Pianos em alemão

Na semana passada, foi lançada a tradução alemã do Cemitério de Pianos de José Luís Peixoto. O autor esteve cá em Viena para a apresentação da obra e leitura de alguns trechos. Eu não era para ir, mas a minha aula de dança foi cancelada em cima da hora e eu fui a casa a correr mudar de roupa e segui para o Cervantes (sim, foi no Cervantes).
A parte boa destes eventos é que se encontra sempre uma mão cheia de gente que só se vê nestas ocasiões e com quem é sempre bom manter o contacto. Networking is the word! Cada vez acredito mais em rede de contactos.
Não sou a maior entusiasta de Peixoto, mas queria ir ao evento porque a tradutora me convidou e no lançamento da Casa na Escuridão fui eu quem fez as leituras em português. Além disso, podia ser que aprendesse alguma coisa. E aprendi! Os livros até podem ser pesadotes, mas o homem fala deles com uma ligeireza tremenda, quase anedótica. Foi semi-doloro (para mim) quando ele confidenciou que o primeiro capítulo relata os últimos dias da vida do pai, que foram simultaneamente os primeiros do sobrinho... Lágrimas prontas à espera da notícia de uma morte que saltaram para fora por causa de uma nova vida! Ele a falar do pai dele e eu a pensar no meu. Enfim... não poderia ter sido de outra forma.
Respondendo à crítica recorrente dos seus livros serem muito sombrios ou pesadotes, ele habilmente disse que a claridade não tem relevância se não houver escuridão. A luz não faz sentido se não houver escuro. Realmente isto fez-me lembrar daqueles diálogos platónicos em que se discutia o paradoxo do prazer e da dor, através da imagem do homem agrilhoado.
Já mais adiante foi muito enternecedor ele dizer que escreve porque o pai o ensinou a sonhar e que sem sonhos não há escrita, não há livros. Alguém tem de sonhar para que se escreva qualquer coisa e isso foi o pai lhe ensinou.
E ainda mais uma coisa que me reconheci: "quem escreve depara-se com aquilo que não consegue descrever" e realmente nas últimas semanas tenho tropeçado tanto nos limites da minha linguagem. Quero dizer coisas e não consigo, porque não sei como dizer, porque não me lembro das palavras, porque as palavras que tenho à mão não dão conta de tudo.
Gostei tanto de ouvir o Peixoto que quase fiquei com vontade de ler o Cemitério de Pianos (quase porque fiquei traumatizada com A Casa na Escuridão)

4 comentários:

Boop disse...

Lê então!
A casa na escuridão é um livro que não consigo recomendar a ninguém! Gostei de o ler, mas é de uma brutalidade atroz! Que sinto não poder obrigar ninguém a percorrer essas páginas. Se o fizerem, que seja processá-los própria!

Os outros não!
"O livro"
"Cemitério de pianos"
"Galveias"
Lêm-se com muito mais leveza.
Acho que não os terias como tempo perdido.
(E nenhum deles se compara com Uma Casa na Escuridão"! !! - trust me!!!)

Boop disse...

(Por vontade própria - era o que queria escrever! - não quero processar ninguém!!!!)

Calíope disse...

Aha! Ok :) Eu não cheguei a acabar A Casa na Escuridão porque não aguentei a brutalidade da coisa...
Recomendas algum desses em especial ou eu que escolha um ao calhas?

Boop disse...

Gostei mais do cemitério de pianos (mais profundo) e do livro (mais divertido - é sobre um rapaz que se chama livro)