domingo, 2 de abril de 2017

Dia das mentiras

As piores mentiras devem ser aquelas que contamos a nós próprios, enganando-nos, mesmo que inconscientemente, e por consequência dificultando (ainda mais) a nossa vida. Coisas tão simples e aparentemente inofensivas como "tu és capaz", "ele há-de aparecer quando menos esperares", "claro que vais conseguir", "depois arranjas outro emprego melhor", etc, etc, podem ser mentiras imensas porque não somos todos feitos da mesma massa. O que serve para uns não serve para outros. Não partimos todos da mesma linha de partida e a meta, essa então, fica muito mais longe para uns do que para outros, havendo aqueles ainda que nunca lá irão chegar. Isto destoa de todos aqueles discursos motivacionais que estão em voga, mas qual é a vantagem de criar ilusões desmesuradas? Fazer com que a queda seja mais dura? Pois, eu também não sei. Mas parece-me que termos conta do nosso tamanho, alcance e acima de tudo aceitarmos as nossas limitações é meio caminho andado para uma vida mais feliz. Estar grato com o que temos e cultivarmos essas potencialidades e não ambicionando a medida do vizinho lado. É bom para ele, mas se calhar não nos convém a nós. Aquilo que sempre quisermos, na prática pode não ser nada daquilo que imaginámos.
Nos últimos meses tenho reflectido muito sobre estas questões - não parece, mas tenho - e realmente desde que reconheci que determinados modelos que sempre almejei se calhar não são os mais adequados à pessoa em que tornei (ou seja, eram grandes mentiras que me mantiveram iludida à procura ou à espera de Godot), a minha vida desemperrou, soltou-se e a engrenagem funciona. Aceitei que a minha vida não tem de ser como a dos outros e que isso não é mau. Antes pelo contrário, tenho uma vida de luxo e estou muito grata por ter tudo o que tenho e ser tudo o que sou. E o caríssimo leitor é testemunha disso tudo. É paradoxal eu andar a pensar nestes termos e na verdade se tiver de dizer duas frases que me orientam a vida são: "A diferença entre o possível e o impossível é a vontade de cada um" e a minha estimadíssima bússola: "Audaces Fortuna Juvat". Continuo a acreditar piamente nisso, mas moderando as expectativas e sobretudo as projecções futuras.

10 comentários:

Ana A. disse...

Tenho andado a reflectir sobre isto também, mas cheguei à conclusão que às vezes são essas mentiras que contamos a nós próprios que nos fazem continuar num caminho.

Calíope disse...

Ana, cada um saberá de si, mas para mim, mentiras que nos prendem a um caminho significa apenas que esse caminho não vai dar a lado nenhum.

Boop disse...

A verdade e a mentira são apenas conceitos abstratos. E/Ou parciais.
Servem-nos, ou não.
Nada é a preto e branco.
Às vezes precisamos definir!
Outras toleramos (ou precisamos) da complexidade.
Acho que não há certo ou errado.

Digo eu....

Calíope disse...

Boop: Acho que estamos todas a falar das mesmas coisas mas a pensar em coisas diferentes. Aceito todas as paletes de cinzentos e verdades / mentiras que nos possam servir, mas acho que pode haver certos e errados (no entanto, admito de bom grado que estes podem ir variando consoante a pessoa/espaço/tempo). Na verdade há tantas condicionantes que é quase tudo possível.

Boop disse...

Pois. Acho que é essa a questão.
A complexidade supera-nos.
Precisamos de uma definição do certo e do errado. Mas a maior parte das vezes é apenas isso - uma construção. Que nos facilita a vida por aparentemente tornar as coisas simples.

Calíope disse...

Sim, sim, o certo/errado serve como uma orientação. Sem dúvida. E levamos com essa dicotomia e outras arraçadas desde que nascemos (bom/mau, feio/bonito, etc). Mas na vida real as coisas não são assim tão lineares. Era como dizíamos ali acima por causa do Moonlight, o facto do dealer ser a pessoa de confiança e +/- respeitável não se enquadra bem nestes modelos, que nos foram inculcados de dois pólos. Lá está, a vida real está cheia destas tonalidades. Digo eu.

Boop disse...

Sorte tenho eu de poder ser amoral (ou ter o dever de o ser) no exercício da minha profissão.
Mas foi uma posição conquistada. Nada fácil.

Calíope disse...

E consegues?

(Ficava de boa vontade aqui à conversa, mas tenho de ir dormir. Que bom teres vindo animar a caixa de comentários! bjs e boa noite)

Boop disse...

A trabalhar? - consigo!
(Quase sempre vá.... Às vezes lá sou apanhada na curva! - mas quase sempre me apercebo disso é vou a tempo de corrigir)

Bons sonhos!

Ana A. disse...

Calíope,
A minha interpretação era mais na lógica de às vezes precisamos de contar mentiras a nós prórpios para continuarmos a caminhar e não ficarmos parados a meio do túnel escuro.
Não são os sonhos também mentiras que contamos a nós próprios e que queremos que sejam verdade? Não mentimos aos nossos filhos a dizer tu consegues e na verdade por eles acreditarem nisso acabam mesmo por conseguir?
É assim tão mau, se essa mentira nos mantiver num caminho ascendente?