domingo, 2 de abril de 2017

342º momento cultural: Moonlight

Que há vidas duras, já todos sabemos. Por pior que seja a nossa vida, haverá alguém num degrau abaixo. Poderá servir de consolo em alguns momentos - sim, somos todos péssimas pessoas - mas é desolador quando olhamos para essas realidades com olhos de ver. Moonlight é a fresta da porta para esse mundo. De repente temos um dealer que é o good guy, temos um miúdo fofinho e assustado a ser perseguido por bullies, uma mãe pavorosa. E é assim que o filme começa, que posteriormente vai avançando a par da vida do miúdo. Gostei do facto do filme estar organizado como uma peça de teatro, em três actos, mas gostei menos daquela câmara a rodopiar em várias cenas. O miúdo é maltratado pelos colegas na escola e atormentado pela mãe, encontrando algum refúgio no tal vizinho dealer. Pelo caminho vai descobrindo a sua sexualidade, o que no enquadramento em que vivia acaba por ser mais um motivo de preocupação/vergonha/medo. Num momento de viragem e em pleno ataque de fúria, ele ataca o seu bully-mor e acaba preso. Dez anos depois, o rapazola franzino transformou-se num daqueles negões com caparro tipo armário (a primeira imagem em que ele aparece é simplesmente maravilhosa. Filmada de costas e de cima, vêem-se as costas e os ombros nus debruçados sobre o lavatório), cheio de bling-bling, que se tornara dealer. Dez anos depois ele volta a encontrar-se com o amigo de infância. E o filme termina pouco depois deste reencontro. Mais um fim aberto demais para o meu gosto...
Gostei do filme, gostei da história, mas não entendo o Óscar para melhor filme enquanto objecto estético, mas consigo percebê-lo enquanto statement político-cultural. Li algures que se tratava do primeiro filme (americano) só com negros por um lado e por outro, que era um filme com negros onde o racismo não era tematizado.

7 comentários:

Boop disse...

Pois é, também gostei do filme, mas não o achei excepcional (mas convínhamos que à medida que os anos vão passando a exigência também vai aumentando...)
E sim, foi um Oscar politicamente correcto. O 1º da era Trump. Uma lição da academia e dos artistas/intelectuais.

Agora que tento escrever(pensar) isto. Realmente tem o seu quê de cliché: "o mau sensível" "o torna-te igual ao teu modelo"
Mas vá... Gostei....

Calíope disse...

Boop: Concordo com o nível de exigência com o passar dos anos, mas acho que o Oscar foi político (ponto) e não politicamente correcto. Politicamente correcto seria o La la land, não achas? Dar o Oscar a este filme é pôr o dedo na ferida - a meu ver - é falar de várias e julgo que todas elas visadas nos discursos trumpistas. P

Sim, tudo bem, o cliché do "mau sensível", mas se ele se tornasse "mau mauzão" era outro cliché, o da vítima que se torna em abusador. Agora pensando melhor, estamos enterrados em clichés até mais não.



Boop disse...

Ahahah
É isso!

Calíope disse...

Ahahahah! Este teu último comentário soou-me a "Hmmm... ela é louca, vou mas é rir, concordar com tudo e sair de fininho" :DDDD

Boop disse...

Pronto!
Reformulo!
O Lala land (que me recusei a ver) seria politicamente correcto.
E o Moonlight foi uma tomada de posição.

E os clichês estão por toda a parte!!

(Mas vês.... Assim a minha resposta ficou um clichê!!!)

Calíope disse...

:) Sim, mas os clichés são aqueles modelos em que somos enfiados. Difícil é encontrar não-clichés/desclichés/aclichés/inclichés... Ou por outra, até não é tão difícil assim, mas depois leva com o carimbo de ave-rara!

Boop disse...

É por essas e por outras que gosto do Tarantino!