sábado, 22 de outubro de 2016

323º momento cultural: Wuthering Heights

Falar de Wuthering Heights é voltar à faculdade e não tenho como contornar esse facto. Durante um ano (ou mais) andem viciada neste romance da Emily Brontë, durante um ano li, reli, treli não só a obra original, como milhentas análises e comentários, vi filmes e claro avancei com a minha própria tese. Eu adorava Heathcliff, mais, Heathcliff foi daquelas paixões tão verdadeiras quanto platónicas que uma pessoa sente. A minha tese passava por provar que Heathcliff não era um vilão, não era o monstro pintado por algumas correntes, mas sim uma vítima da sociedade. Baseava-me nas teorias do bom selvagem de Rousseau, li o Candide em francês e queria muito levar a minha adiante e achava que um dia iria fazer o meu doutoramento à volta deste tema, comprovando a inocência de Heathcliff, qual advogada de defesa. Havia um capítulo que sabia de cor... o XIV, salvo erro.
Bom, serve esta introdução toda para dizer que quando vi várias versões de Wuthering Heights no programa da Viennale esbocei um sorriso. Era como se fosse encontrar um velho amigo querido, quase 20 anos depois.
E fui.
Havia 3 versões, por força das circunstâncias só pude ir ver duas. Uma de 1939 a preto e branco com Laurence Olivier e outra de 1985 francesa. Na altura da minha paixão assolapada tinha vistou outras duas versões, uma francesa e outra de 1992 com Ralph Fiennes e Juliete Binoche.
Bom, ver um filme original a preto e branco no cinema é um luxo. Pode ser só eu a ser sentimentaloide, mas realmente sinto um encanto especial. Rever e reviver a história neste formato foi mesmo como reencontrar alguém do nosso passado. Há coisas de que lembramos e outras que não, outras ainda que com a conversa acabam por regressar à nossa memória e lá está, o filme foi uma autêntica viagem a esse meu passado. Confesso ter algum medo de me deparar agora com uma história sem graça, com um Heathcliff sem piada nem encanto, idealizado de alguma forma nesse feitiço. Mas não. Estava lá tudo o que eu gostava nele... e todos aqueles (meus) mixed feelings em relação à Catherine. No fim, quando ele maldiz a sua morte e condena-a a assombrá-lo para todo o sempre, enquanto chora sofridamente, para que pelo menos assim ela sempre a acompanhe, foi mesmo o clímax de tudo. Era o capítulo XIV... Era o texto que eu sabia de cor. Foi m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o!
Tão maravilhoso que fui comprar o bilhete para a segunda sessão e comer uma salsicha para o jantar no quiosque mais próximo enquanto a segunda sessão não começava.
E digamos que depois daquele apogeu seria difícil satisfazer-me... muito menos com personagens com nomes trocados, miudagem francesa e uma terriola perdida. Todo o texto, toda a densidade da história se perdeu com aqueles actores, com aqueles nomes, com aquele cenário e a cores! Eram miúdos de 20 anos com um ar de parvo a fazer cenas que não convenciam a ninguém... só para terem uma ideia, o Heathcliff, chamado Roc nesta versão, era louro... É que não faz sentido nenhum! Assim, todo o dramatismo e toda a intensidade pareceu uma birra ou um exagero de adolescentes parvos.
Eu fiquei a pensar porque é que nem me tinha questionado acerca da idade dos participantes no filme a preto e branco, mas na verdade isso não interessava nada... a reprodução dos cenários, o guarda-roupa e o facto de ser a preto e branco como que cristalizou a história. Tudo fazia sentido. Não era dramatismo de meia-tigela. Era tudo sentido. Era tudo crível. A mesma história a cores e com guarda-roupa dos anos 80 pareceu apenas ridícula... só isso. Claro que Catherine não ia morrer de amor. Claro que Heathcliff não ia prestar-se àquelas figuras....
E de repente apercebi-me que essas grandes histórias de amor sofridas e dramáticas fazem parte desse mundo imaginário, cristalizado e a preto e branco. Passando a mesma história a ter cor e um pé com a realidade tudo muda. Catherine teria casado com Edgar, tudo bem... e não iria morrer de amor. Heathcliff seguiria a sua vida sem aquelas pessegadas todas, pois na vida real a vida não pára e as personagens multiplicam-se ao virar de página. 

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