domingo, 17 de abril de 2016

297º Monsieur Chocolat

O festival de cinema francês (ou francófono, para ser mais correcta) é parte integrante da minha agenda cultural (tal como o nórdico que é daqui a umas duas ou três cinemas). O caríssimo leitor sabe que Maria Calíope tem uma predilecção por cinema francês desde sempre e por outro lado, uma das últimas edições deste festival marcou o ínicio de um tórrido e inesquecível affaire e por mais que eu queira não consigo desassociá-los. Boas memórias são para ser comemoradas e não esquecidas, certo?

Nesta edição - nada de episódios escaldantes nem sequer em potencialidade - mas um filme muito bom, coisa que eu já não via há imenso tempo. Vê-se que já não via filmes franceses há imenso tempo!
Só no fim de Monsieur Chocolat é que me apercebi de que se tratava de uma história verídica, a do primeiro artista de circo negro a ser uma autêntica estrela. Estamos em final do século XIX em França num circo de província, há um artista negro que faz o papel de canibal, até ao dia em que o palhaço o convida para fazer um dueto consigo. A fórmula resulta no circo de província de tal forma que o dueto maravilha é catapultado para Paris. A fórmula continua a resultar e se por um lado Chocolat deslumbra-se com o seu sucesso e dinheiro, por outro apercebe-se que continua a ser tratado abaixo de cão - a ter o papel humilhante, apesar de ser ele a estrela da companhia, a receber menos que o palhaço branco - e resolve tentar a sua sorte como actor de teatro. Embora se tenha esforçado muito, ultrapassando muitos obstáculos, o público continua a vê-lo como o negro-estrela-de-circo e vaiam-no no fim da estreia da peça... Ele termina os seus dias como empregado de um circo de província, morrendo de tuberculose.
Gostei muito do filme e fiquei muito desiludida com o final infeliz. Ele não quis dar um passo maior que a perna, simplesmente vivia à frente do seu tempo numa sociedade altamente racista. Foi preso só porque sim e alvo de discriminações várias... No entanto, há uma história de amor bonita, pois foi ele quem ficou com a enfermeira - tendo antes dela feito muito sucesso entre outras tantas mulheres - e ela que não abdicou dele apesar de todo o preconceito vigente. A relação entre ele e o palhaço branco também não ficou clara... havia ali entre eles uma necessidade, como inveja, como medo, como posse. E o que é que ele (palhaço branco) fazia do seu dinheiro? Porque é que estava sempre com os olhos tão tristes e magoados? A vida também deve ter sido muito dura com ele, mas o filme não resolve essa parte. Outra coisa que me ocorreu é o que o Omar Sy (Chocolate) acaba por desempenhar sempre o mesmo papel. Este é o 3º ou 4º filme que vejo com ele e ele faz sempre este papel de uma minoria qualquer...
Um filme a ver, sem dúvida, (desculpem lá já ter contado a história toda) porque não tenho assim tanta certeza que todos os preconceitos tenham ficado confinados ao século XIX.

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