Saindo dde casa de manhã:
Ontem: 2ºC
Hoje: 16ºC
Pois...
Ontem: 2ºC
Hoje: 16ºC
Pois...
Mergulhos num mar de palavras que ecoam ideias, experiências e outras tantas coisas errantes pela minha cabeça.
- Estava eu no escritório e senti o chão a tremer. Dois segundos depois vejo a planta a estremecer. Foi uma sensação estranhíssima... só me ocorreu que não poderia ser o metro, uma vez que eu trabalho num 5º andar e há vários anos. Estava à espera de réplicas enquanto olhei para a minha colega que estava com um ar tão atrapalhado como eu. A ela ocorreu-lhe que não poderia ser uma bomba pois não havia barulho e depois lembrou-se de uma vez quando caiu uma janela do nosso edifício. Em alguns minutos descobrimos que tinha mesmo sido um terramoto. 4.1 na escala de Richter com o epicentro a 20 km de onde estávamos.
*Como o caríssimo leitor, Maria Calíope é uma entusiasta residente na Áustria e com grande pena minha não posso votar aqui. Abdicaria de boa vontade do meu direito de votar em Portugal para poder votar aqui, pelo menos nas eleições legislativas. Posso votar para a Junta de Freguesia e tudo o resto (à excepção das autárquicas) voto para Portugal. Hoje foram as presidenciais e eu estou em choque com o resultado. O partido de extrema direita leva uma vantagem medonha. Felizmente nenhum presidente será eleito sem maioria, por isso haverá segunda volta. Não me incomoda o facto dos candidatos dos partidos do bloco central (local) tenham andado à volta dos 10%, mas quem é que vota FPÖ?! Não consigo compreender... quer dizer, até consigo, o homem é bem parecido e bem falante e tem aquele discurso populista que as pessoas querem ouvir. Há coisas que me assustam aqui na Áustria, ultimamente dias de eleições são uma delas. (Acabei de ver que na minha freguesia e aqui em Viena foi o candidato dos Verdes que lidera os votos. Menos mal.).
Meus amigos, o que me divirti! Ainda bem que optei pelos bilhetes de pé porque me fartei de dançar! Foi óptimo! Eles fazem arranjos novos e, digo eu, mais sofisticados a música comercial, o que faz com que a música ganhe outra vida. Havia uns 4 cantores, um piano, um violoncelo, uma bateria, um saxofone, um clarinete e uma artista de sapateado. E o que eles se divertiram também. Faz toda a diferença quando alguém desfruta e se diverte naquilo a que chama trabalho! O concerto começou em grande com a Bad Romance da Lady Gaga, para mim a grande surpresa foi a I want it that way dos Backstreet Boys, e o que rejubilei com a My heart will go on da Celine Dion - pior, eu sabia a letra todinha! Foram muitas as outras músicas que cantaram e que eu dancei, mas fiquei com pena de não terem cantado esta Bye, bye, bye... pois acho que seria perfeita para o fim!
Para um ano dedicado à dança é triste constatar em finais de Abril que ainda não tinha visto nenhum bailado este ano. Ok, já dancei mais este ano do que em anos normais, mas ver bailado clássico é uma coisa sempre inspiradora. Por isso, acabei o serão na Staatsoper a ver este Verklungene Feste e Josephs Legende. Li qualquer coisa em diagonal antes de ir, mas não o suficiente para entender o enredo da história - partindo do princípio que havia uma história! Vá percebi que havia uma festa e até acho quem era o Joseph, mais pormenores não me perguntem.
É engraçado pois mesmo sem perceber nada da história como fico hipnotizada a ver pessoas a dançar. Apesar de ser uma casa que prima pelo bailado clássico, no caso vi uma peça com uma roupagem mais moderna e com cenários menos elaborados. Sigo os movimentos, passo a passo como se fosse um picotado, e fico ali entretida como se não tivesse preocupações na vida!
Confesso que esta fatiota do Joseph manteve-me intrigada durante o segundo acto. Que trapo era aquele?! E a meio caminho do fim, a outra bailarina arrancou-o... e ele ficou o resto do tempo a dançar de tanga. Não sei se será muito confortável, mais ainda a rebolar tanto no chão como nas mãos dos outros nestes trajes. Enfim ossos do ofício!
Depois do Outono em Fevereiro, agora em Abril estou a reviver Novembro bem mais revigorado. Ontem foi aquele email e as minhas memórias. E hoje e no mesmo alinhamento cósmico - o de Novembro - fui almoçar com o Artista.
Só no fim de Monsieur Chocolat é que me apercebi de que se tratava de uma história verídica, a do primeiro artista de circo negro a ser uma autêntica estrela. Estamos em final do século XIX em França num circo de província, há um artista negro que faz o papel de canibal, até ao dia em que o palhaço o convida para fazer um dueto consigo. A fórmula resulta no circo de província de tal forma que o dueto maravilha é catapultado para Paris. A fórmula continua a resultar e se por um lado Chocolat deslumbra-se com o seu sucesso e dinheiro, por outro apercebe-se que continua a ser tratado abaixo de cão - a ter o papel humilhante, apesar de ser ele a estrela da companhia, a receber menos que o palhaço branco - e resolve tentar a sua sorte como actor de teatro. Embora se tenha esforçado muito, ultrapassando muitos obstáculos, o público continua a vê-lo como o negro-estrela-de-circo e vaiam-no no fim da estreia da peça... Ele termina os seus dias como empregado de um circo de província, morrendo de tuberculose.
Ontem na aula sobre D. Sebastião, explicava aos alunos como uma decisão irresponsável de um rei teve consequências nefastas para Portugal e como o seu desaparecimento deu origem ao mito sebastiânico. Explicar que no sebastianismo se acredita que D. Sebastião há-de voltar não lhes foi difícil de compreender, a parte da actualidade deste mito é que lhes pareceu mais questionável. Eu lá lhes enquadrei o mito na crença cristã daí também ter tanto eco. Por outro lado, esta atribuição do nosso destino nas mãos do alheio consistem numa estratégia de desculpabilização, irresponsabilidade e vitimização. Por fim, saiu-me esta comparação: Portugal é uma princesa, que espera que o príncipe a salve, pois ela coitada não pode fazer nada, coitadita. Por isso o mito se vai perpetuando...
A semana no Porto valeu-me acima de tudo pelas pessoas com quem me encontrei (estou a esquecer propositadamente a parte da comida). Fui a trabalho, mas aproveitei para me encontrar com uma série de pessoas e foi mesmo o melhor da semana (volto a omitir a comida). Passear à chuva (frio e vento e meias ensopadas dentro das botas) com a Lois, com direito a francesinha, Lello e visita guiada e comentada pela baixa do Porto. Que surpresa a arte urbana na Rua das Flores e que bom que foi voltar ao Cais da Ribeira! O dia em que me encontrei com a Caetana até estava bonzinho, uma hora antes de nos encontrarmos desaba um temporal sobre a cidade! Estou na dúvida se gostei mais do arroz de polvo ou da cataplana de lulas que comi com ela, mas mais uma alma nortenha que se mostrou incansável comigo a mostrar-me a zona metropolitana do Porto. A vista do restaurante para o Porto onde estivemos em Gaia é daqueles cartões postais da cidade. É fabuloso quando as pessoas da vida real superam as suas construções escritas.