terça-feira, 15 de março de 2016

O Príncipe

Acho que pela primeira vez na vida assisti em directo a uma tomada de posse de um governante português, não se deu o caso de ser uma estreia a nível mundial pois calhou estar em Buenos Aires na tomada de posse do Macri e estar a almoçar num restaurante com a televisão ligada na altura que ele chegou à Casa Rosada. Neste caso, a casualidade foi menor, apesar de ter calhado bem estar à frente de um computador e haver um streaming ao vivo da chegada de Marcelo a Belém. Vi e fui acompanhando a imprensa escrita, assistindo também a milhentos analistas e comentadores políticos. Em duas ou três ocasiões houve quem fizesse a associação ao presidente-rei e eu gostei. Já por aqui confessei que devo ter uma costela monárquica - talvez idealista demais - porque gosto da suposta unidade que uma monarquia transmite. Conheço súbditos de várias majestades norte-europeias e todos eles estimam muito os seus monarcas. Parece-me que isso é importante para um país e eu, que ando há quase 20 anos a votar, nunca senti especial estima por ninguém que possa ter eleito e tenho pena disso. Ao ver o estado de graça em que Marcelo surgiu como cabeça da nação, mas mantendo-se também próximo da base da pirâmide, favorecendo em simultâneo aqueles que muitas vezes não têm voz, achei que essa imagem de presidente-rei muito apelativa. Por motivos muito diferentes gostei muito da celebração ecuménica na Mesquita de Lisboa e a invocação de Ourique. Mas depois parei para pensar. Ourique?!* Ourique justifica a existência de Portugal como sendo divina. Ourique foi uma farsa que alguém algures no século XV ou XVI se lembrou de inventar para não perdermos a nossa independência. E depois ouvi que a primeira visita oficial é ao Vaticano. Voltei a lembrar-me de Afonso Henriques** e das suas diligências para convencer o Papa Alexandre III a reconhecer Portugal como reino independente. De repente, o Presidente Marcelo pareceu-me medieval e não sei se gostei assim tanto. Simpatizo tanto com ele como com o Papa Francisco, mas não consegui sair da Idade Média. Pior. Saí hoje com o comentário de um outro jornalista que dizia que não houve ditador que não tenha tido também grande popularidade a início. E acabei de me lembrar do Príncipe de Maquiavel para titular este post.
Nas próximas presidenciais, logo falaremos mais.

*Eu adoro o episódio de Ourique ao ponto de ser sempre matéria de exame todos os semestres.
** O meu grande ídolo da História de Portugal

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