domingo, 6 de março de 2016

287º momento cultural: Spotlight

Já nem sei há quanto tempo não ia ao cinema, mas finalmente consegui pegar em mim e sair de casa. Fui ver o caso Spotlight, não só por ter ganho o Óscar de melhor filme, mas porque tenho especial interesse sobre o assunto, não me sendo alheio que esse caso trouxe consequências para a minha vida. Tive uma educação católica como julgo ter a maior parte dos portugueses: de ter aulas de catequese e de ir à missa todos os semanas. Nunca tive religião e moral na escola, nunca pertenci a grupo de jovens, nunca se falou/debateu assuntos da bíblia em casa e recusei ser catequista quando mo fui proposto aos 16 anos ou coisa que o valha. No entanto, interesso-me (muito) por temas religiosos - não apenas católicos nem cristãos - adoro qualquer tipo de documentário do foro religioso e reparem ali na coluna do lado que um dia gostaria de ler o Corão. Não tenho a certeza se acredito em todos os dogmas do catolicismo e tenho muitas reservas em relação a algumas práticas, mesmo assim acredito em Deus. Não me parece que faça sentido haver santos, mas ando com um Santo António como companheiro de viagens! Isto tudo para dizer que eu própria tenho um fundo religioso, mas que está cheia de contradições.
Gostei do filme porque não acho que padres, bispos ou sacerdotes em geral sejam mais pessoa do que eu ou o querido leitor. Não aceito sequer que tenham sido escolhidos por Deus.  Não aceito ter passado anos e anos a ouvir sermões moralistas e que são intrusivos à minha consciência. Não aceito, porque por melhor ou pior que seja a minha cabeça tenho o direito de pensar por mim mesma. Por isso não posso pactuar com uma igreja que prega uma coisa e faz outra, sendo que a outra é criminoso e atenta contra aqueles que a igreja tenta defender: os fracos e oprimidos. Acredito que não são todos assim e que até haja mais bons padres que maus padres. Mas é tão ladrão o que rouba como o que fica à porta... o que omite, encobre e esconde. E é isso que enquanto católica praticante me ofendeu e que me fez deixar de o ser. Deixei de ir à missa porque não quis ser cúmplice.
O filme está construído de tal maneira que fica bastante claro que ao fim ao cabo toda a gente sabia, mas que por um motivo ou por outro achou melhor assobiar para o lado. E foi preciso insistir, revolver dados antigos, juntar muitas peças soltas, não sofrer pressões e não se deixar influenciar porque "parece mal" (o que eu detesto esta expressão!) e na verdade pôr todo o cocó na ventoinha.
Fiquei contente que um filme como este tenha ganho o Óscar de melhor filme porque relatar estas situações são sempre meritórias.

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