quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Babel

A minha vida actual - actual há 13 anos - é uma confusão de línguas. Aprendi umas quatro ou cinco na escola e outras tantas por diversão. Falo com mais ou menos fluência quatro línguas e meia, três diariamente. Antes teria mais cuidado em dizer que confundo línguas, agora consigo fundamentá-lo cientificamente. O meu doutoramento foi a (minha) prova cabal de que as línguas não são estanques e que o cérebro não tem gavetas. Algures na minha tese dizia que a mistura de línguas tanto servia para o falante proficiente que domina as suas línguas e sabe quando melhor aplicar esta ou aquela, mas também para o falante menos proficiente que se socorre da língua mais disponível para conseguir se expressar.
Quando adquiri a obra Babel da Ana Aragão em Lisboa não lhe conhecia o título e só pensei que era a que gostava mais das que estavam em exposição e que estava contente por estar a cumprir mais uma coisa que havia dito há anos: queria ter um Ana Aragão em casa. No entanto, ao falar com o tipo da galeria disse-lhe "Queria aquele quadro ali que parece a torre de Babel!" ao que ele me respondeu "Chama-se mesmo Babel!".
Só quando cheguei a casa (Viena) e reparei numa reprodução da Torre de Babel de Bruegel que tenho aqui e eis que se fez luz. Babel tem tanto a ver comigo. Não poderia ter escolhido obra melhor. As línguas, a sua confusão e o princípio de tudo. Gosto desta ideia de casa como espelho do que somos e sem dúvida que estas paredes são a cara de Maria Calíope.

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