Já desde Maio que queria ver este filme e o facto de ser tripartido em sequências não me assustava. Se o caro leitor bem se lembra, Maria Calíope considera
Tabu do mesmo realizador a sua obra-prima e sem dúvida o melhor filme de todos os tempos da cinematografia portuguesa, por isso estava muito expectante em relação a estas mil e uma noites. Todo o imaginário protagonizado por Sherazade é apreciado em muito por estes lados, mas a sua fusão com a realidade portuguesa uma combinação tão improvável quanto desafiante.

Vozes proféticas já me tinham avisado que As mil e uma noites estariam na Viennale, mas foi com surpresa que o conferi no programa e ainda mais com que fui. (A semana passada foi tão exigente em termos emocionais quanto cansativa a nível de trabalho e nesta constelação 6 horas de filme não me pareceram tão sedutores quanto um sofá, um chazito quente e não fazer nada).
Claro que chegado ao domingo, eu achei inaceitável da minha parte não ir ver um Miguel Gomes ao cinema só porque estava cansada... estes filmes não têm metade do encanto em casa. E lá fui.
Vi o
Inquieto e o
Desolado, já não pude ficar para a terceira parte, o
Encantado, pois começou já passavam das 23:30 e eu trabalhava na segunda...

À saída do
Inquieto estava bastante animada e confiante. Gostei imenso da primeira parte onde o realizador apresenta o seu projecto, desafios e medos, uma espécie de função meta-linguística que desmistifica logo à partida qualquer interpretação do além que se possa fazer. E o filme continuou com várias histórias do que eu chamo "Portugal profundo". São histórias verdadeiras de um Portugal rural que eu não conheço em primeira mão, por isso soou-me a anedota, mesmo que conseguisse reconhecer a sua colagem a uma realidade por mim desconhecida.
Gostei o suficiente do
Inquieto para sair a correr da sala e comprar o bilhete para o
Desolado. Era este que me causava mais curiosidade, nem que seja por ser o candidato a nomeado ao Óscar dos filmes estrangeiros.

A primeira história ainda veio muito no seguimento do Inquieto, mas depois tudo mudou. Um tribunal grego teatralizado que retrata o rol de trambiquices que se fazem/passam/sofrem em Portugal, em que nunca ninguém tem culpa, em que há sempre desculpas e atenuantes. É bizarro, mas acho que real. A história final deixou-me completamente deprimida. Era já num bairro suburbano de Lisboa e retratava dois casais e as suas condições miseráveis. Mais do que falta de dinheiro, era a falta de vida, de motivações, de objectivos, de tudo que lhes presidia a vida. Para mim, o deprimente foi saber que são histórias reais e que aquilo poderiam ser os meus vizinhos do meu bairro em Portugal. Ao contrário do Inquieto que contava histórias lá da província, estas poderiam ser-me muito próximas... e só não são porque eu não vivo em Portugal, mas este possibilidade de vislumbre para mim foi desoladora.
Não acredito que o Miguel Gomes chegue ao Óscar com o
Desolado, mas reconheço-lhe o mérito deste trabalho de fusão.
Talvez em breve consiga ver a terceira parte.