sábado, 26 de abril de 2014

Iemanjá

Ao preparar a viagem para o Brasil, muitos amigos e cohecidos fizeram-me a recomendação de aparentar ser o "turista pé descalço", de andar de calções e chinelos, de não ostentar jóias nem malas, de levar o dinheiro nos bolsos.

O cúmulo foi o meu pai ao telefone: "Calíope, vê como as pessoas andam aí vestidas e compra roupa igual!"

Bom, 10 dias de Brasil e não me parece que a minha roupa tenha chamado a atenção... até hoje. Ainda não eram 9 da manhã e já estavam mais de 30ºC com um sol abrasdor. Eu ia passear à cidade, envergando uma saia, um top de alças e havaianas, mas ao olhar pela janela, pensei que era bom ter qualquer coisa para cobrir a cabeça. Não olhei para o chapéu de palha, nem para a boina, mas para um lenço (que há dois dias servia de pareo/saída de praia/toalha de praia). Lembrei-me do meu look aladino quando estive em Marrocos e achei que poderia criar o look Iemanjá. Associo o Nordeste brasileiro a Iemanjá e imaginei que houvesse imensa gente a andar de turbantes com o calorão que cá está. Et voilá! Num piscar de olhos tinha enrolado o lenço num formato de turbante, que era precisamente da mesma cor do meu top (azulão). Os meus óculos à la Jackie Kennedy têm uma armação verde escuro que combinava com a saia verde caqui. E lá fui eu para a cidade linda e maravilhosa e a achar que estava super nativa.

Numa sapataria umas horas depois.

Senhora: Você é daqui?
Calíope: Se eu trabalho aqui?
Senhora: Não, você é daqui dji Fórtálezá?
Calíope: Não, não.
Senhora: Ah! Pois, eu nunca vi ninguém de turbante aqui...
Calíope: Não?!
Senhora: Não, por isso imaginei que fosse de fora. O lenço é quadrado?
Calíope: É rectangular. Eu sou portuguesa.
Senhora: Mas fica-lhe bem! E olhe cuidado com a bolsa...
Calíope: Obrigado. Sim, sim, está aqui presa.
Senhora: E se lhe perguntarem não diga que é portuguesa.
Calíope: Eu não posso dizer que não sou portuguesa, porque se ouve!
Senhora: Ah! Então diga que vive cá... há uns 2 anos. Assim é melhor!
Caliope: Ok, ok!

Mantive o turbante, os óculos e a pose de Iemanjá o resto do dia e mais ninguém me abordou pela minha aparência exótica! Ainda agora me ocorreu que se calhar as pessoas só andam de turbante na Bahia e não no Nordeste todo.

Fortaleza, 25 de Abril às 23:35

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