quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Maria Calíope e o padeiro de Peshawar

Toda a verdade!

Uma presença constante e incontornável em qualquer metro quadrado em Marrocos foi a chamada mão de Fátima. Inicialmente nem me tinha apercebido muito bem de que se tratava de uma mão, mas ao fim de ver tantas lá tentei descobrir do que se tratava. "Mão de Fátima" foi a resposta que obtive, resultando na pergunta óbvia: "E quem é Fátima?".

Entretanto já ouvi de diversas variantes e ainda não tive ocasião de procurar, mas aparentemente Fátima é tão só a mãe/ primeira mulher / filha mais velha de Maomé. O parentesco parece-me secundário face à importância do símbolo e da pessoa que está por trás dele. A mão de Fátima protege e por isso é que ubíqua.

Como portuguesa, a coincidência do nome com o da outra senhora estava ali escancarada à minha frente. Tão óbvia, tão óbvia que não poderia ser coincidência. Não era a primeira vez que tinha sido alertada para o facto de Nossa Senhora de Fátima ter um nome tipicamente islâmico, mas nunca me tinha parecido tão evidente, nem nunca me tinha debruçado sobre o assunto.

Em Marrocos, estava de férias o que me proporcionou muito tempo livre para pensar. Quais eram mesmo os 3 segredos de Fátima? Revolução russa de 17? II Guerra Mundial? Hmm... ok... E aquele 3º segredo que só a Irmã Lúcia é que sabia... e o Papa João Paulo II também era mesmo o quê?! Lembro de ter sido revelado e na altura ter achado que a montanha tinha parido um rato... Era sobre o atentado ao Papa?!!! Segredo muito fajuto. Bom, lá andei eu entretida com os meus pensamentos durante algum tempo até que uma epifania se apoderou de mim! Sim, eu sou dada a epifanias.

É tão claro como água. O 3º segredo de Fátima só pode apelar à união entre Cristãos e Muçulmanos. Só pode ser isso! Foram séculos de lutas, de conquistas, de reconquistas, de avanços, de recuos e milhões de mortos, quilolitros de sangue, para quê?! Nossa Senhora de Fátima é a mãe/ primeira mulher / filha mais velha de Maomé. Só pode ser. Afinal somos todos monoteístas e temos todos esta senhora a dar o ar da sua graça. Isto na minha cabeça fazia tanto sentido que a partir desse momento passou a ser verdade. "Eu é que sei qual é o verdadeiro segredo de Fátima!" pensava eu divertida. Relatei a minha sequência de ideias a várias pessoas - tão leigas quanto eu - que concordaram com o meu raciocínio.

Entretanto anteontem estava a ler qualquer coisa (Viagens dentro de mim do Gonçalo Cadilhe) e de repente há uma personagem - o padeiro de Peshawar - que emite o mesmo raciocínio do que o meu umas semanas antes. Eu fiquei incrédula. Li a página três vezes. Estava ali escrito o que eu tinha pensado (tirando a parte disso ser um segredo de Fátima)... como é que era possível?! Mas se lá estava escrito, a minha linha de ideias não é assim tão disparatada.

Maria Calíope e o padeiro de Peshawar: uma relação improvável!

Sem comentários: