sexta-feira, 31 de março de 2006

Arrumações

À sexta-feira é o dia em que me transformo em dona-de-casa. Vou às compras, comparo preços, cozinho, lavo a loiça, aspiro o chão, dou um jeito à casa... ok, estou a exagerar, não faço isto tudo todas as sextas-feiras! Mas sempre que chego a casa com um saco a tiracolo a transbordar de legumes e fruta e provavelmente ainda com um pacote de leite na mão ainda antes das 10 da manhã, receio estar a transformar-me numa dona-de-casa profissional...
Adiante.
Já que estava com a mão na massa, resolvi também dar uma escovadela aqui a esta casa! A meu ver está mais acolhedora, por isso continuam todos a ser muito bem-vindos!

sábado, 25 de março de 2006

Às vezes

Às vezes gostava de ser forte
Ser forte de modo a não ter medo
Não ter medo de perder o que não tenho,
nem o que nunca tive.

O medo do vazio é tanto que cria realidades ocas
Tão ocas e tão fictícias.
Eu sou fraca porque acredito nesta realidade que sei não existe,
Mas queria tanto que fosse verdade...
E que eu estivesse errada.

Mas não estou.

Às vezes, gostava de ser forte...

terça-feira, 21 de março de 2006

Pódio-cidades-para-viver

1. Lisboa
2. Viena
3. Barcelona

Amores à primeira vista:
1. 24 anos de convivência dão azo a muitos enamoramentos
2. Transportes públicos
3. Varandas

Diabo a fugir da cruz
1. Desorganização a todos os níveis
2. Tempo e pessoas cinzentas
3. Língua

A grande novidade deste pódio é Barcelona. Barcelona surgiu no meu horizonte de forma muito espontânea e não poderia ter-me surpreendido mais, por tudo e mais alguma coisa. Uma cidade viva, cosmopolita, à beira-mar plantada, limpa, com metro, a transbordar cultura, cheia de lojas e com certeza com mais um sem número de atributos. Adorei Barcelona e nem sequer estava bom tempo, isso é que me espanta!!! Enquanto deambulava pela cidade, nunca me ocorreu de estar numa cidade europeia como outra qualquer, que é o que me acontece com frequência. Gostei tanto de Barcelona que resolvi que se não mudar de planos antes, daqui a mais ou menos 30 anos, quando me reformar, mudo-me para lá de armas e bagagens!

quinta-feira, 16 de março de 2006

CCC* apresenta Celeste

16h Bip bip! "Olá Celeste!Espero que não estejas muito zangada comigo. Desculpa lá a cena de ontem... mas não deu mesmo. Vou-te buscar hoje às 8 para irmos jantar. Até logo! Beijinhos. Hugo"
"Desculpa lá a cena de ontem?! Não deu mesmo?! Mas que parvoíce é esta?! E eu deixou-me comprar por um jantareco de meia-tigela... que falta de respeito...." resmungava Celeste.
Estava zangada, mas essencialmente triste por ele não ter aparecido e especialmente por não ter dado sinal de vida, quando tinha dito que o fazia... Celeste detestava isso, às vezes era preferível não dizer nada... mas Celeste dava importância às palavras tanto as que proferia como as que recebia e se ele tinha dito que ligava, tinha mesmo de ligar. Celeste já tinha passado por alguns temporais feios, para que esta gota de água lhe causasse tanta mossa, mas a sua paciência tinha limites e parecia que os seus contornos já se delineavam no horizonte.

19.55 Dling dlong! "Olá! Sou eu..." Ouviu Celeste no intercomunicador. "Dá-me 5 minutos que eu já desço!"
Já estava pronta e esmerara-se com a escolha da roupa, dos acessórios, da maquiagem... estava perfeita e melhor do que isso, decidida. Pegou na mala e saiu.

- Marquei uma mesa naquele restaurante que fomos da última vez...
- Ainda bem.

Esta tinha sido a conversa possível no carro. Celeste não queria amansar pois se começasse com um "Olá! Estás bom?" o fim da conversa ia ser numa cama qualquer (entenda-se a sua ou a dele!), por isso não baixou a guarda. Ele também devia estar a sentir alguma culpa no cartório, por isso não insistiu na conversa de ocasião... talvez já estivesse a preparar a sua cota de armas para o chumbo grosso que deveria vir a caminho. Chegaram ao restaurante e não podiam ter melhor mesa à sua espera: recatada e dispersa do confusão de cheiros, sabores e vozes que se entrelaçavam por ali.

- Eis o menu. As sugestões para hoje são filetes com molho de limão e nozes e rolo de porco com castanhas e ameixas. Posso trazer-lhes entretanto um aperitivo?
- Um martini para mim, por favor. - pediu Celeste.
- São dois então.
- E para mim pode ser já os filetes.
- Então eu peço também já, mas a carne sff.

- Agora se calhar já podemos conversar, não? - lançou Celeste com um tom irónico - Queres começar tu?
- Ó Celeste desculpa. Obviamente que não foi de propósito... mas sabes como são os jantares da empresa... Eu disse-te que te ligava e ia fazê-lo... mas....
- Hugo, poupa-me a essas tretas. Está à espera que eu te diga o quê? "Oh coitadinho... esteve num aborrecidissimo jantar de trabalho entre gravatas, charutos e galdérias..." Tem lá paciência...
- Não estou à espera que digas nada, mas apenas que te comportes como uma pessoa razoável que és e não uma adolescente a ter uma crises de ciúmes!
- Crise de ciúmes?! Ciúmes de quê? De ti?. Mas eu digo-te, tu ontem só provaste o que eu sempre soube. Eu não valho nada para ti...
- Ó Celeste, não digas isso... sabes que não é verdade.
- Claro que não é verdade, eu só adquiro algum valor, quando não compito com nada... pois tudo o resto parece ter uma mais valia sobre mim. A situação é insustentável... Eu nunca te pedi nada, mas exijo o mínimo de consideração e isto para mim não chega. E o que eu vi ontem foi falta de respeito e má educação.
- Mas para quê este Carnaval? Explica-me...
- Carnaval para ti que sempre foste o galo do poleiro. Para ti está tudo óptimo porque és tu quem dá as cartas... As pessoas têm prioridades na vida, Hugo, e obviamente eu não tenho peso nenhum na tua...
- Estás a exagerar...
- Não, não estou. Se tu quisesses ter aparecido ou ligado ou tido qualquer tipo de comportamento recto, tinha-lo feito. Mas não, foi por opção... As pessoas têm de assumir as opções que tomam. Eu não sou tua mãe para ter de saber o que andas a fazer, no entanto exijo o respeito que mereço. Não me parece que seja pedir muito.
- Tu continuas a exagerar... e nem sequer me deixas dizer o que se passou. Eu esqueci-me do telemóvel no carro do João e quando voltámos obviamente que não te ia ligar às tantas para te acordar e dizer que afinal já não passaria por tua casa. Isso sim seria uma falta de respeito.
- Poupa-me! Olha eu estou farta disto!Queres saber porquê? Porque não é isto que eu quero para a minha vida. Eu mereço mais e não me sujeito a faltas de respeito. Isto não tem pernas para andar, Hugo, tu sabes que não tem. Tem piada durante uns tempos mas depois cansa... já não é novidade, não é? Já durou tempo a mais por isso, come o meu peixe quando vier, obrigado pelo jantar... e continuação de boa vida!

*Cadela Com Cio

quarta-feira, 15 de março de 2006

everyday

"He sees her everyday. Everyday she walks by and glances at him. ‘Why’, he must think, ‘do I feel like this? I don’t even know her!’
Two strangers who just smile at each other by no other reason than politeness.
But still he wished he could say something…
‘Hi. I’m glad it’s not raining…’
‘Hi. How’s everything?’
‘Hi…’
That’s the only word which could make any sense between them.
10a.m. He opens the office’s door. And there she is. Wouldn’t it be so easy to say good morning? She just walks by, looks at him and smiles… That smile just makes him feel the happiest man alive. But it’s just a smile… the most beautiful and honest smile he has ever seen. If he could just touch her…everyday…

She sees him everyday…"

terça-feira, 14 de março de 2006

Terapias

Não sei qual é a definição concreta de terapia, mas a meu ver uma terapia é qualquer coisa que num momento de crise nos faz sentir melhor.
Há duas terapias que faço com muita regularidade, uma chama-se trabalho e a outra compras.
Gosto de trabalhar e julgo que o trabalho tem tanto de edificante, como de distractivo... pelo menos o meu! Ao trabalhar, sinto-me útil e sei que é dali que sai o meu pão-nosso-de-cada-dia. Por outro lado, o trabalho é uma óptima manobra de diversão para ideias infelizes, pois faz-me estar concentrada no que estou a fazer concretamente e não deixa espaços ocos. Mais ainda, é algo que me dá gozo e faz rir. Não consigo conceber uma vida sem trabalho e pelo contrário, já acumulei várias tarefas para me abstrair de outras coisas.
Adoro ir às compras e em tempo fazia terapia das compras com as minhas amigas. Tem piada que lembro-me de que em momentos de crise haver alguém a dizer-me "Anda às compras a ver se animas!" E anima mesmo! Ainda não consegui descortinar qual é o fascínio de ir às compras (comprar qualquer coisa nova - pode ser - gastar dinheiro - não me parece - ser um investimento na própria pessoa - também pode ser), mas que resulta, isso sim! E compram-se coisas extraordinárias nestes períodos críticos!

sábado, 11 de março de 2006

CCC* apresenta Cecília

"Quem é?" - "É a Cecília!"
Cecília abriu a porta, passou o pátio e entrou no prédio. Enquanto subia as escadas, sorria entretida com os seus pensamentos. Pela enésima vez, subia aquelas escadas e continuava a ter dúvidas se tinha de bater na porta do segundo ou do terceiro andar... Enganara-se apenas uma vez, mas o vizinho não devia estar em casa, pelo menos ninguém reagira ao toque da campaínha. Desta vez, a porta certa estava entreaberta, ela limitou-se a bater de leve e entrou de seguida.
- Estás aí? - conferiu Cecília.
- Olá! Também acabei de chegar... não faz nem dez minutos... - a voz de dentro de casa apareceu no corredor de corpo inteiro e gravata já lassa.
- Olá Francisco! Estás bom? Então muito trabalho, foi?
- Hmm... o costume, mas temos um projecto novo. Já te conto. Queres beber alguma coisa?
- Antes de mais quero um copito de água. - disse Cecília já a caminho da cozinha.
- Ok, eu trato da outra então, - disse-lhe Francisco piscando-lhe o olho e acrescentando ainda - escolhe tu a música, temos aí uns cds novos, se quiseres!
I don't want nothing more than I get, nothing I have is truly mine... começou a ouvir-se na sala e a ecoar pelas outras divisões.
- Tu gostas imenso de Dido, não é? - perguntou Cecília.
- Sim, sim... olha vem cá ver se está bom assim... ou se está muito quente para ti? - retorquiu Francisco da casa-de-banho.
- Até parece que não me conheces... - disse Cecília entre risos - some like it hot! E eu pertenço ao clube... mais quente para mim, mas vê la se tu aguentas!
- Goza, goza... que eu já me vingo! Vou pôr a música mais alta, senão não se ouve nada daqui. Se tu não gostas de Dido podemos ouvir outra coisa.
- Gosto, gosto... sabes aquela "I want to be a hunter again..."? É a minha preferida!
- Ai sim? Queres ser caçadora outra vez, conta lá isso! - disse Francisco com um tom sarcástico.
- És mesmo parvo! - disse Cecília atirando-lhe um pouco de água. - Eu vou entrando, traz uma toalha para mim, se faz favor.
Cecília começou a despir-se enquanto a banheira enchia-se de água. Aquela relação com Francisco tinha começado de forma bastante casual e um ano depois continuava com a mesma informalidade. Eram amigos com certeza, amantes de ocasião e eventualmente qualquer coisa mais. Anteriormente já se preocupara em demasia com rótulos, agora estava mais interessada em disfrutar bom momentos concentrando-se no que tinha, em vez de se queixar pelo que lhe faltava.
Francisco voltara com as toalhas e sem roupa. - Ainda não entraste?
- Não, estava à tua espera. Mas está bem, eu fico deste lado.
Os dois entraram na banheira. Durante uns minutos não trocaram uma única palavra e deixaram-se envolver pela água quente, óleos e essências. A música não podia ser mais a propósito: I say come back. Come in from the cold into the warm. I feel like fire guiding you back home as darkness falls.
- Mais um bocadinho e dormimos aqui os dois. - disse Francisco quebrando o silêncio.
- Até não era nada mal pensado, mas só enquanto a água estiver quente. Mas conta lá do projecto da empresa.
- Ainda não está nada definido, mas como está a entrar imenso dinheiro, devemos mudar de instações em breve e ficar com o prédio só para nós.
- Pois, lá no vosso escritório aquilo já está um pouco incomportável...
- Mas não é só isso, há rumores que devemos abrir umas delegações no estrangeiro, mesmo fora da Europa.
- Nada mau! Eu ainda me espanto de vocês terem tanto sucesso... o certo é que se vê o nome da empresa em tudo o que é lado.
- É o que te digo, a aposta foi grande, mas tu nem imaginas o que está a render...
- Eu vi o teu patrão no outro dia... para a próxima tenho de o congratular! Mas olha que ele não estava nada com bom aspecto. Diz-lhe que não pode andar assim todo trambolho e mal-vestido... as gravatas vermelhas favorecem-no tanto!
- Ok, eu faço isso e já agora tu pede-lhe um aumento para mim!
- Combinado!
Era este tipo de situação que ainda fazia alguma confusão na cabeça da Cecília. Eis um perfeito exemplo de uma conversa normal entre dois amigos que podia ter tido lugar num restaurante ou na praia, mas não fora ali dentro da banheira e por acaso, ou talvez não, estavam os dois em pêlo, afinal de contas não fazia sentido nenhum estarem a tomar banho vestidos.
E já que estavam ali os dois a jeito... a banheira era grande, mas obviamente que os seus corpos roçavam um no outro. Um pé a passar por um ombro, uma mão a subir pela perna... e uma coisa levou à outra!
O tempo passava lentamente naquela banheira, mas a água esfriecera e os dedos já estavam engelhados.
- Estou a ficar com frio, acho que o melhor é sairmos...
- Sim e eu com fome.
Saíram os dois da banheira e enquanto Cecília limpava-se e enxugava o cabelo, Francisco já estava pronto em boxers.
- Eu vou ver o que descubro na cozinha... podíamos fazer uma massa ou assim.
- Está bem, eu despacho-me já e já te ajudo.

* Cadela Com Cio

domingo, 5 de março de 2006

CCC* apresenta Cremilde

Mais uma vez ia Cremilde em passo apressado para a empresa. Havia uma relação directa qualquer entre o seu despertador e as reuniões, em que convinha não chegar atrasada.
Nesse dia, uma comitiva de colegas estrangeiros seria apresentada à sua secção e não convinha que a responsável pela mesma fosse a última a chegar.
Enquanto subia no elevador, lia as indicações que já dispunha da tal comitiva: um grupo de italianos... sete... todos homens... óptimo! Cremilde não conseguiu esconder um sorrisinho malandro, olhou imediatamente ao espelho, deu um jeito ao cabelo, certificou-se de que estava tudo em ordem e saiu do elevador!
- Buon giorno! - disse entusiasmada. Afinal de contas, não tinha sido a última a chegar, a comitiva italiana estava muito mais atrasada do que ela.
Os ragazzi chegaram uns 10 minutos depois e Cremilde fez as honras da casa. Não se alongou muito, pois de seguida havia um buffet que por norma quebrava os gelos e tornava as coisas um pouco menos formais. 60% daquela amostra masculina levava pontuação máxima, 30% eram visivelmente acima da média e os 10% eram relegados para o NS/NR.
Durante os dias que se seguiram teriam todos que trabalhar juntos. Cremilde já tinha encetado um plano: alguma percentagem dos 60% mais interessantes ia querer iria querer sair com ela para um copo depois de trabalho. Mas infelizmente não obteve qualquer resposta positiva. Surgiu ainda a possibilidade de um café com um exemplar dos 30%... mas também não deu em nada. Cremilde não estava a perceber muito bem qual o problemas dos seus planos e enquanto se ocupava em limar arestas: surpresa das surpresas! O tal indíviduo a quem tinha dado a marca NS/NR acabara de lhe mandar um email a convidá-la para jantar. Realmente com tantos tipos giros.
Cremilde estava sem namorado, caso ou afim há mais de um ano... já era muito tempo, tempo a mais. Um convite para jantar tinha de ser visto com bom olhos, mesmo que um pouco fechados! O amigo italiano não dava nas vistas como (todos) os seus colegas, mas era simpático. A conversa fora agradável e o jantar melhor ainda. Cremilde não tinha percebido muito bem se aquela manobra (o melhor restaurante da cidade) tinha sido só simpatia ou teria sido uma vontade especial em encher-lhe o olho e cair nas suas boas graças.
Nos dias seguintes, Cremilde tirou as suas dúvidas. A hipótese válida era a segunda. Os convites continuaram e ela continuou a aceitá-los... literalmente por interesse, mas pelo menos havia qualquer coisa que a movia, o que já não acontecia há tempo de mais.
Os jantares multiplicaram-se e as actividades diversificaram-se, não só fora de portas, como também dentro! Nas últimas semanas do intercâmbio, o sr. NS/NR já passava mais noites em casa de Cremilde do que no seu quarto de hotel. Cremilde estava igualmente satisfeita, afinal voltava a sentir-se mimada.
No último dia, Cremilde voltou a ser surpreendida: "Queres vir viver comigo para Florença, principessa?", mas disfarçou muito bem a surpesa retorquindo rapidamente um: "E porque não?"

*Cadela Com Cio

Sensores

Uma das coisas mais irritantes que existe são os sensores-de-movimento-que-servem-de-interruptor-para-qualquer-coisa. A casa-de-banho do escritório onde trabalho tem destes sensores para acender a luz. Quase todas as vezes eu tenho de entrar, dar dois passos para trás, mais um para a frente, um ou dois saltos e se tiver sorte o sensor dá pela minha presença... Quando se dá a ocasião de estar um bocadito mais aflita e ir directa para as devisões com as sanitas, vou às escuras!
Ainda mais ridículo é quando se trata de portas automáticas, nomeadamente as dos comboios. Lá tem uma pessoa de levantar os braços e fazer outras tantas figuras ridiculas porque a sensível da porta não dá pela nossa presença...
E que tal se a sensibilidade destas porcarias fosse baixada para o metro e meio ou mesmo para o 1,40m?! Para quê fingirmos todos que somos muito altos?