terça-feira, 28 de fevereiro de 2006

Dias perfeitos

Há dias perfeitos e ontem foi um desses dias.
O meu conceito de dia perfeito de Inverno passava, até ontem, por haver aquele solzinho típico de Inverno e frio. De ontem em diante passou a ser algo diferente. O solzinho, mesmo não aquecendo, ilumina, brilha e anima e neve a cair. Perdoem-me a ingenuidade, mas eu não sabia que era possível nevar e estar sol ao mesmo tempo. Ontem pude experienciar essa realidade e é fabuloso!
E para acabar o dia em grande, chegar a casa coberta com um manto estrelado. Lindo! Até acho que vi a Ursa Maior!

(Para os que não sabem, o tempo normal em Viena são nuvens e é indiferente a estação em que se esteja. Conclusão: nem sol de dia, nem estrelas de noite.)

domingo, 26 de fevereiro de 2006

CCC* apresenta Cíntia

Um passo à frente, mais um e outro ainda. Lança a cabeça para a esquerda e depois para a direita e meia volta sobre si. Uma volta no varão. Quatro passos para trás e passa as mãos pelo corpo debaixo para cima. Estica um, estica o outro, cruza-os por trás das costas e desaperta o soutien. Pega nas plumas e vira para a frente.
Cíntia poderia fazer esta rotina de olhos fechados, tinha a certeza que não iria nem contra o varão, nem cairia do palco. Era stripper há 6 meses, não por opção, mas por necessidade. No princípio custara-lhe, mas agora era-lhe indiferente. Já estava completamente alheia a todos aqueles olhares, mais uma vez, não tinha tido outra hipótese.
Com a sua nacionalidade não era fácil arranjar um emprego. A suas habilitações não eram más, mas não eram suficientes e a falta de uma autorização de trabalho tinham-na empurrado para aquele clube. Uma conhecida sensivelmente nas mesmas condições dançava lá já há uns anos e recomendou-o sem hesitar. Não havia segurança social, mas havia dinheiro. Era mesmo só ter de se despir em palco ou em privado, nada de espectáculos de sexo ao vivo e muito menos sexo pago. Os clientes estavam terminantemente proibidos de lhes tocar.
Naquele dia, enquanto fazia a rotina tantas vezes repetida, Cíntia observava os clientes. Aos fins-de-semanas, as mesas costumavam estar cheias, durante a semana, a lotação variava. A casa estava composta e um curioso grupo tinha acabado de entrar. Quatro rapazes poucos mais velhos do que ela, aparentemente amigos, mas todos muito diferentes: um casual, um desportivo, um desleixado e o último todo aprumado com gravata e tudo. Este último chamou a atenção de Cíntia, obviamente não pela gravata, mas por tudo o resto!
Infelizmente a sua actuação estava no fim e Cíntia voltou para os bastidores.
Passados um bom quarto de hora, uma colega avisa Cíntia que tinha um cliente à sua espera para um privado. "Oh não! Pensei que já estivesse despachada por hoje..." Os privados ainda não tinha conseguido digerir. A proximidade com o cliente era muita constrangedora. Eles não lhes podiam tocar, mas podiam dizer muita coisa... e às vezes conseguiam ser muito ordinários. Quem lhe cairia na rifa?
Cíntia retocou a maquiagem, despiu o robe, vestiu a indomentária própria e dirigiu-se à divisão indicada para si. Nem nos seus melhores palpites lhe ocorreu quem poderia ser o cliente, nada mais, nada menos do que o sr. Aprumado.
Ele sentou-se e Cíntia começou a insinuar o seu corpo com movimentos lentos e dengosos. O sr. Aprumado seguia-a com os olhos e indagou-a logo nos primeiros minutos: "Podes falar ou é mesmo só linguagem corporal?"
- Não podes tocar-me! Conversar não é proibido, mas posso preferir não falar - disse Cíntia esboçando um sorriso.
- E preferes? Tantas regras...
- Tem de ser, se não c'est le bordel!
- Oh la la madame! Falas francês?
- Não... estudei uns anos, mas já não me lembro bem. No entanto, esta expressão adequa-se muito a este enquadramento. - Cíntia não costumava responder aos clientes, mas a abordagem deste tinha sido diferente, mas enquanto falava, rodopiava pelo varão e a sua roupa ia desaparecendo.
- Como vieste cá parar? Se calhar poderias trabalhar noutro sítio melhor...
- Estás a pagar para me ver a fazer um strip para ti e não para servires de assistente social! - respondeu Cíntia prontamente.
- Tive curiosidade... gostaria de voltar a ver-te...
- Lamento, acabou-se o tempo! Adeus! - Cíntia pegou nas suas coisas e incrédula saiu.

* Cadela Com Cio

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

CCC* apresenta Celina

"Até que a morte ou uma assinatura vos separe!". Esta seria a alteração que Celina sugeriria aos votos matrimoniais. Tinha prometido a Deus, ao padre e a todos os presentes na cerimónia (incluindo o seu então futuro marido) que aquilo ia durar para sempre... mas afinal teve de quebrar a sua promessa com uma assinatura. Tinha pedido Afonso em casamento... e em divórcio também. Agora já estava. Papeis assinados e alianças nos bolsos. Uma relação de 10 anos acabava ali, 7 dos quais de papel passado. O fatídico 7 não fora superado.
Apesar de acreditar no que chamava "poligamia sequencial", Celina julgava ser Afonso o último da fila e foi... até aparecer Gonçalo. A poligamia sequencial apoiava-se no pressuposto de que cada pessoa tem vários relacionamentos antes de assentar arraias, mas qualquer uma destas relações em regime de exclusividade.
Gonçalo surgira na vida de Celina por casualidade e por brincadeira de crianças, mais precisamente das suas alunas. Celina era professora e tinha uma relação bastante cúmplice com os seus alunos em geral.
No início de mais um ano escolar, algumas alunas foram comentar consigo quão interessante era o novo professor de educação física. Na altura, ela nem ligara, mas chegando as reuniões intercalares voltou a lembrar-se do assunto e não resistiu a deitar-lhe um olho inquiridor. Para além de bem parecido, também era simpático e eloquente. Tinham várias turmas em comum e horas livres entre blocos de aulas também. Dois dedos de conversa aqui e ali que começaram por ser de trabalho, rapidamente alargaram-se e transformaram-se em almoços conjuntos muito regulares.
Mais reuniões e a jantarada de Natal dos professores. Uma noite muito bem passada acabada numa pista de dança qualquer. Ele também dançava!
Com as férias veio um previsível afastamento e Celina acusou a falta dos almoços com Gonçalo. A sua própria reacção causara-lhe alguma estranheza. Afinal de contas por que razão sentiria falta de um colega? Estava bem casada e tinha bons amigos. A estranheza passou à ansiedade nos últimos dias das férias que foram todos contados de forma decrescente.
Os almoços voltaram a acalmá-la, mas agora eram muito mais demorados e tinham já um leve saborzinho de flirt... e não partiam de Celina.
Mais reuniões intercalares e no fim delas parecia de propósito: o carro de Celina não tinha bateria e o de Gonçalo estava ali mesmo ao lado. Foram jantar juntos. Conversa puxa conversa, uma coisa levou à outra e acabaram em casa de Gonçalo. Celina já não voltou a sair no mesmo dia. Felizmente para ela era véspera de fim-de-semana e Afonso estava fora.
O caso resultou num romance e o casamento de Celina saiu desencantado.
Assim que se apercebeu que era Gonçalo que queria a seu lado, Celina teve uma conversa séria com Afonso. Não valia a pena bater mais numa tecla que já não tocava. Ele concordou. Celina já tinha as malas arrumadas. "Gonçalo, estou aí em 20 minutos!"

* Cadela Com Cio

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

Trabalhos práticos

Se há coisa que me irrita solenemente é o hábito que muita gente tem em associar determinadas funções a um X ou um Y...
No outro dia, esteve cá em casa um técnico para verificar a canalização por causa de uma eventual infiltração. Aparentemente estava tudo bem, mas ele duvidou um pouco do isolamento da banheira e fez a seguinte recomendação: "O melhor é isolar melhor a banheira, pois como vê, isto já está um pouco solto e a água pode passar por aí. Peça ao seu namorado para pôr um pouco de silicone aí ou então contacte-nos que nós podemos fazer isso também." A minha resposta foi imediata: "Não se preocupe que eu trato do assunto!". Se calhar ele não percebeu, mas o que lhe dissera era para ser cumprido literalmente.
Ter de arranjar um namorado de propósito para servir de mestre de obras? Pagar 50€ à hora por uma tarefa de cinco minutos?
Se eu tenho dois braços, duas mãos, uma cabeça e nada que me faça desarticular os movimentos por que não poderia ser eu mesma a resolver o problema? Por ter unhas pintadas?
Enfim, lá arranjei a pistola do silicone e hoje fui comprar o dito. Mãos à obra! Confesso que foi a primeira vez que isolei o que quer que tenha sido, mas para quem já andou a arranjar torneiras e a montar prateleiras, não foi um grande drama. Provavelmente qualquer homem fá-lo-ia com uma perna às costas, eu precisei das duas mãos porque não tenho muita força, mas acho que ficou bem feito! Aproveitei o balanço e isolei também a torneira da cozinha!
Fico contente cada vez que consigo resolver estes pequenos imbróglios domésticos, mas se tivesse de viver disto, se calhar passaria fome!

terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

Prodígios

É com muito agrado que volto a falar da minha profissão. Apesar de uns anos para cá tenha servido para alguns part-times, continuo a apresentar-me como sendo professora.
Recentemente comecei a dar uma série de cursos novos e constatei que a faixa etária dos meus alunos nunca foi tão larga como a presente.
O meu aluno mais novo tem 7 anos. Tem tanto de mimado e arrogante como de inteligente e diz coisas tão fabulosas como "há meninos de todas as cores como as pedras preciosas" e tão surpreendentes como "as fadas são umas chatas que estão sempre a aborrecer-me!".
A minha aluna mais velha tem 84 anos. Não, não me enganei: oitenta e quatro anos! Ainda só tive uma aula com ela, mas acho genial o facto de querer aprender uma língua nova já octagenária e o motivo não poderia ser mais enternecedor: poder contar histórias à sua neta (que é portuguesa).

domingo, 19 de fevereiro de 2006

CCC* apresenta Carlota

Bip! Bip! Aquele toque de mensagem de um Nokia era reconhecível em qualquer parte do mundo. "Olá! Vai um copo? 6ª-feira 21.30 na 1ª paragem do 43. Vou lá buscar-te. Beijinhos e até lá!B."
- Isto é que é um homem a sério! - gritou Carlota a transbordar de entusiasmo - claro que eu vou lá estar! Queres ir também? Eu vou dizer que também vais e ficas logo a saber quem é ele.
- O que se passa? - inquiriu Matilde.
- Olha aqui! Ele não está com rodeios... quer ver-me e nem me dá hipóteses de recusar o convite. Não está com aquelas mariquices de "queres...? olha vê lá se te apetece...? será que...? posso...?"
Carlota estava a viver com certeza um ponto alto da sua vida. Estava radiante e com um brilho especial nos olhos. Não tinha namorado, mas as coisas pareciam bem encaminhadas. Andava a sair com vários tipos e desconfiava que algum deles deveria resultar em qualquer coisa...
- Bolas! 6ª-feira é hoje! Eu tenho combinado sair com o Rogério... era para ir tomar um café e depois irmos ao cinema... - lembrou-se Carlota.
- Qual é o filme? Diz-lhe que já viste e por isso não podes ir...
- É um bocado forçado, não achas? Já sei! Digo-lhe que como está tão bom tempo não me apetece enfiar-me no cinema... mas ele que não se incomode comigo e vá na mesma com o resto do pessoal. Tomo um cafezito e depois vou-me embora.
- Achas que não soa a desculpa esfarrapada? - conferiu Matilde.
- Eu sei... mas eu também não tenho qualquer interesse nele... ia sair com ele porque não tinha mais nada que fazer.
- Ok. Tu é que sabes. Eu hoje não posso sair... vai lá tu sozinha... tu gostas mesmo do Bruno, não é?
- Não sei... Mais do que do Rogério de certeza. Acho que o Bruno vale a pena o investimento. Vou dar-lhe só um pouco de corda e vamos ver o que ele faz com ela.
- Parece-me bem...
- Bom, deixa-me ir lá ter com o Rogério e sei lá com mais quem.
- Tu és demais! Já não te basta sair com dois ou três tipos diferentes por semana, agora é mesmo por dia!!!
- Não sejas parva...

- Olá!
- Olá! Olha estes são o Pedro e o Tiago. Estão cá de visita.
- Ai sim? E que tal estão a gostar? Ah! Olha eu já não quero ir ao cinema...
Carlota avançou com a sua desculpa sem fazer muito caso. Pelos vistos Rogério estava acompanhado o que era óptimo. Foram tomar um café e dar uma volta pela cidade. Mais dois dedos de conversa e eles perderam a sessão a que queriam ir e continuaram todos em animada cavaqueira. Carlota perdera a noção do tempo e pior já tinha perdido muito tempo. Já não tinha tempo de ir a casa jantar se quisesse ir ter com Bruno, chegando lá a horas. Para piorar as coisas:
- E que tal se fôssemos todos jantar?
Carlota não conseguia lembrar-se de nenhuma desculpa e precisava mesmo de comer qualquer coisa, pois ir de estômago vazio beber uns copos com Bruno seria o suicídio da sua futura eventual relação.
- Está bem... mas não posso demorar-me muito. Amanhã trabalho cedo e depois do jantar ainda queria fazer uma coisa.
Nada estava a correr com o previsto. O jantar demorava a sair. Carlota já tinha maldito umas mil vezes o momento em que se lembrara de ir ter com Rogério. Porque não inventara ela uma desculpa qualquer logo de início? E agora não se conseguia livrar dele e dos amigos... Que lapa!
Depois do longo jantar, Rogério continuou com as suas sugestões completamente descabidas no entender de Carlota. Um bar?! Ir a um bar depois de jantar? O pior é que Carlota não queria dizer que tinha de ir para casa, pois na sua cabeça e de acordo com as Leis de Murphy assim que dissesse isso, as probabilidades de irem todos parar ao mesmo bar aumentariam vertiginosamente.
- Olha desculpa... para mim não dá. Tenho uma coisa combinada...
- Ai sim? Onde vais?
Carlota caiu que nem uma patinha.
- Vou ter com uns amigos... não sei onde é o bar. Mas se quiserem podem vir...
Carlota fez o convite esperando ouvir um não como resposta, mas não foi isso que ouviu e entrou em pânico... Como seria possível piorar as coisas? Era possível... Bastou-lhe puxar pela memória. Rogério e Bruno conheciam-se de uma conferência onde todos se tinham conhecido... O que é que o Bruno vai ficar a pensar... coitada... o raio da batata quente continuava a aquecer...
Após este delírio de ideias, Carlota voltou a pôr a cabeça a funcionar. Não devia contas a ninguém, nem a Bruno e muito menos a Rogério. Se Bruno lhe tinha dito que Matilde poderia ir era porque era ou uma festa ou pelo menos que lá estariam mais pessoas. Portanto coragem! Levantou a cabeça, retocou a maquiagem e enfrentou a situação.

Pipipipi! Onde é que estava o raio do telemóvel? Ai! Era Bruno...
- Olá! Está tudo bem?
- Olá! Desculpa o atraso... estou quase aí... dá-me dois minutos pois já estou no metro. ´
- Ok! Eu também ainda não estou na paragem do 43, descansa. Até já!
Tudo sobre controlo com Bruno, mas Rogério continuava a deitar água na fervura, se calhar sem querer, mas só a presença dele e do amigo já irritava Carlota.
- Disseste-lhe que íamos contigo?
- Não.
- Porquê?
- Porque acho que não era necessário.

Chegados à tal paragem, a cabeça de Carlota parecia um catavento. Onde está Bruno? Onde está Bruno? Carlota já não o via há uns bons meses. E ei-lo! Lindo como sempre.
Com tanta coisa a importunar a sua cabeça, Carlota nem tinha pensado como reagir ao reencontro. Nem teve tempo de pensar em nada. Correu para ele e abraçou-o, ele retribuiu.
Enquanto ainda estava abraçada a Bruno apercebeu-se que ele estava ali sozinho... Era um date e ela feita parva não só trazia um tipo atrás, mas sim dois.... Que estúpida! Ainda por cima o interesse era todo o seu...

- Então? Estás bom? Estás com óptimo aspecto!
- Sim... tu também não estás nada mal...
- Olha, este é o Rogério e o Pedro... - assim começou a fantochada - ah! pois é! vocês já se conhecem daquela conferência... pois como é que nem me lembrei disso? - disse a tentar fazer piada com um sorriso muito amarelo.

Bruno disse que já tinha os seus arraiais assentados num bar ali perto e encaminharam-se todos para lá. Carlota agarrou-se ao braço de Bruno e não voltou a dirigir palavra a Rogério. Não fora de propósito, mas com Bruno ali, nem se lembrou que Rogério ali estava. Chegados ao bar, estava um amigo de Bruno lá sentado numa mesa. Provavelmente foi com grande espanto que viu Bruno, Carlota e mais dois individuos... guarda-costas?
Carlota, por sua vez ficara aliviada ao ver o amigo de Bruno, afinal não era um date... menos mal, a sua borrada era ligeiramente menor.

A noite melhorou substancialmente. Carlota estava divertidíssima a conversar com Bruno e o amigo dele que se esqueceu completamente de Rogério e Pedro... apesar destes estarem ao seu lado.
- Olha, nós vamos andando. Estamos um pouco cansados.
Foram estas as últimas palavras que ouvira de Rogério nesse dia, nesse mês, nesse ano.
Ao sairem, o amigo de Bruno limitou-se a comentar, entre risos:
- Carlota, para a próxima traz gajas! Onde é que tu foste desencantar estes tipos?
- Desculpem lá... não foi de propósito... mas eles não me largavam! Vá a próxima rodada de bebidas pago eu, ok?

*Cadela Com Cio

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

CCC* apresenta Cassandra e Cibele

Foi já com mais de 20 anos de amizade na bagagem que Cassandra e Cibele enveredaram pela primeira viagem em conjunto. Nunca se tinha proporcionado e até então nunca tinha sentido a falta de não terem viajado juntas.
Passeávam-se num centro histórico de uma cidade qualquer, quando se depararam com uma feira de artesanato. Consumistas como ambas eram, foram com a desculpa de que precisavam de recordações para familiares e amigos.
Bancas com imans para o frigorífico, bonecos de madeira, cachecóis e t-shirts, entre outros, alinhavam-se formando um quadrado. Sem irem ao mesmo passo, ambas arrastavam-se pesadamente observando tudo com atenção.
- Cassandra! - chamou Cibele uns passos mais à frente. - Chegas aqui sff...
Cassandra avançou e ficou algo surpresa com o que Cibele tinha-lhe para mostrar.
- Olha-me para isto!
'Isto' era uma banca com uma série de artefactos em cabedal, de onde ressaltava uma variada selecção de chicotes.
Ambas trocaram um sorriso cúmplice e simultaneamente inquiriram: "Será que são caros?", "Olha, pergunta lá o preço!".
- Até não são caros... e olha aquele ali tão bonito - comentava Cibele.
- Para que é que tu queres um chicote? - perguntou Cassandra divertida.
- Para nada! - respondeu Cibele, fazendo propositadamente um ar cândido e singelo, - Era só mesmo para decoração!
- Pois, pois... decoração, de coração e para outros músculos também, não? - provocava Cassandra entre risos.
- Não é nada disso, a sério que acho aquele chicote muito bonito. Obviamente que não vou começar a chicotear corpos... mas quem sabe se um chicote à mão não pode fazer jeito. - defendeu-se Cibele.
- Sim, sim... Eu tenho uma proposta para ti! Pago-te metade do chicote ou posso mesmo oferecer-to, mas tu tens de me contar TUDO o que fizeres com ele. - propôs Cassandra divertida com a própria ideia.
- O quê? O que achas que eu haveria de fazer com o chicote... Estás a ensandecer... Eu só queria pendurá-lo na parede... - justificou-se Cibele, meia incrédula com a proposta.
- É pegar ou largar!
Olharam as duas uma para a outra com um olhar cúmplice... desataram a rir e concluiram:
- Vamos ver os imans para o frigorífico! É mais seguro!

* Cadela Com Cio

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

CCC* apresenta Cassilda

"Maria. Sou a Maria." Era mentira. Na verdade, chamava-se Cassilda, mas uma portuguesa Maria era a identidade que utilizava sempre que tinha um encontro cibernáutico qualquer. Essas eram as informações fixas, pois todos os outros dados que facultava eram variáveis. Dependiam da sua disposição e do seu interlocutor. Tinha um email criado para a ocasião e nunca mandava fotos, mas recebia-as com todo o gosto. Os seus admiradores ou correspondentes ou dates eram bastantes e variados: um album, ou melhor, o catálogo onde os dispunha assim o comprovava.
Uma mão cheia de pessoas desinteressantes que procuravam relações fáceis eram constantemente postas de lado, mas havia também quem conseguisse chamar a sua atenção no meio daquela multidão. Conversas fluída e sem lugares comuns eram já um bom princípio.
O seu sistema de selecção baseava-se num simples sistema de pontos. Quem atingisse os mínimos e continuasse a marcar pontos ia tendo direito a mais dados verdadeiros.
Houve um pretendente que marcou tantos pontos, que Cassilda lhe deu o seu contacto. E ele telefonou!
Cassilda estava radiante e embevecida com a voz dele. O timbre certo era música para os seus ouvidos. Ele convidou-a para jantar... em sua casa. E continuava a marcar pontos!
Elegante mas casual, discreta mas com alguma carne de fora e perfumada, claro está, foi assim que Cassilda lhe foi bater à porta.
Musiquinha ambiente e um aperitivo. Uns bifinhos com arroz e salada a acompanhar, tudo regado por um Rioja. Nada de muito sofisticado, mas saboroso. Mais uns pontos. Queijo para sobremesa porque o queijo fecha o estômago. Digestivo e a musiquinha ambiente continuava. Tudo parecia perfeito.
A seguir ao jantar ele diz estranhamente que ia tomar banho. Cassilda franziu o sobrolho e manteve-se sentada no sofá. Alguém estava a perder pontos. Que ideia descabida tinha sido aquela?
A água não correu por muito tempo e ele volta a sair da casa de banho... tal como veio ao mundo (mas mais desenvolvido!). Cassilda surpreendida não conseguiu emitir mais do que um mero "E que tal se te vestisses?!" e não teve tempo nem presença de espírito para apreciar o que quer que fosse. Oferendas assim de bandeja, não obrigado.
Levantou-se e saiu.


* Cadela Com Cio

terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

Lugares livres

Para todos os corações que ainda tenham um lugar de estacionamento livre, desejo um feliz dia... como outro qualquer!
Afinal de contas quem difunde estas tradições consumistas e artificiais com certeza que também não anda a festejar o S.Martinho com castanhas nem a oferecer manjericos nos santos populares!

O português

Uma das actividades que proponho aos meus formandos pede que eles opinem sobre o que é ser português. Esta actividade é introduzida por uma banda desenhada, na qual, mordazmente, se aponta um dos traços bem distintivos do vulgar “tuga”: o hábito de dizer mal de nós próprios, de nos denegrirmos, e de sermos pessimistas, embora, se for um estrangeiro a dizer mal de nós, bom, aí tudo muda e nós somos os maiores.

É curioso notar que (quase todos) os meus formandos rejeitam esta ideia. Então seria de esperar textos bem optimistas e que valorizassem o que somos e o que por cá se faz, mas tal raramente acontece. Penso que, de facto, os textos que leio confirmam a ideia da BD.

Porém, há outros traços que, creio, hoje em dia caracterizam melhor o português. Para além do chavão de sermos maus condutores, de nos desvalorizarmos, de andarmos sempre taciturnos e a cantar o fado, julgo que hoje temos outras coisas que nos descrevem melhor.

Da minha responsabilidade, identifico facilmente três, que são as seguintes:

Não temos dinheiro, não temos tempo, e estamos sempre cansados. Ou melhor: DIZEMOS que não temos dinheiro, que não temos tempo, e que estamos sempre cansados.

Com efeito, como é possível haver pessoas que trabalham apenas algumas horas por dia, serviços fáceis em que não puxam pela cabeça nem pelo físico, que passam a vida a ver televisão, ou a falar pela net, e mesmo assim clamam constantemente que estão cansadas?

Como é que posso aceitar que haja pessoas que passem 8 horas no trabalho, mas só 3 ou 4 a trabalhar efectivamente, e que depois ainda tenham o grande cinismo que praguejar constantemente, dizendo que têm tido muito trabalho?

E como é que poderei compreender que pessoas que ganham bem, dinheiro certo, que compram motos, móveis, artigos perfeitamente desnecessários que mais não são do que expressões de riqueza supérfluas, tenham a lata de se queixar de dez em dez minutos que não têm dinheiro?

Porém, é este tipo de pessoa que nós vemos hoje em dia; o típico português é este fulano, aparentemente paradoxal, mas que na realidade nem se dá conta de o ser e da paupérrima e insuportável imagem que transmite. Com efeito, o “tuga” é assim:

(Diz que) não tem dinheiro, mas nunca deixa de ir ao café três vezes ao dia, de comprar o último telemóvel que saiu, de possuir um carro, e de dar 60 euros ou mais pelo concerto dos U2;

(Diz que) anda sempre cansado do trabalho, mas à sexta-feira à noite é até o sol nascer, a dançar e a beber, e pelo meio da semana ainda conseguiu almoçar em duas horas, em vez da uma permitida pelo horário, para já não falar dos intervalos para o café, para o bolo, para o iogurte e para o chá; ah, e dos habituais atrasos – do trânsito – e das saídas mais cedo – que (nunca) são sempre pontuais;

Para completar, só falta de dizer que português que é português adora o tunning, a selecção e falar mal dos políticos, como se os políticos não fossem também portuguesinhos e animais como nós…

Agora, meus amigos, enfiem a carapuça, se tiverem essa coragem.

domingo, 12 de fevereiro de 2006

Mysterium Fidei

Credo in unum Deum,
Patrem omnipotentem, factorem caeli et terrae,
visibilium omnium et invisibilium.
Et in unum Dominum Iesu Christum,
Filium Dei unigenitum...

Costumo ir assistir ao domingo uma missa em latim numa catacumba da Catedral de St. Estêvão. É mais fácil de a seguir, pois as partes em alemão resumem-se às leituras e à homilia. Não há cântigos e ao lado do altar está uma das imagens de Nossa Senhora mais bonita que alguma vez vi.

Bom, à força de repetição ou de pura crença a minha fé em Deus nunca foi e duvido que seja alguma vez posta em causa, mas é muito interessante verificar como fé e razão podem ser tão díspares. Racionalmente, tenho muitas dúvidas em relação a muitos episódios bíblicos (mesmo antes de ler o "Código da Vinci"), mas a fé não se questiona, acredita-se ou não.
Eu acredito. Mas mesmo assim, não sou cega, surda e muda e com certeza que não digo "amen" a tudo o que me impingem. Para alguma coisa Deus deu-me cabeça! É bastante interessante, pelo menos para mim, ver perspectivas diferentes relativas a dados adquiridos. Recentemente, soube de uma teoria em que Jesus Cristo não morreu na cruz, mas sim, fugiu com ajuda de alguns discípulos e foi parar à Indía, onde difundiu os seus ensinamentos.
Apesar de isto pôr em causa pedra basilar de tudo o que eu acredito, acho que as justificações apresentadas parecem bastante plausíveis.
Vou procurar mais pistas e variações em evangelhos apócrifos. Se alguém souber de algum dê-me a dica.

sábado, 11 de fevereiro de 2006

CCC* apresenta Catarina

Catarina abriu os olhos, havia um feixe de luz que lhe bateu na cara e que a fez voltar à consciência... ou pelo menos tentar. O rápido exercício mental de se lembrar que dia era e onde estava não estava a resultar. Uma estranha dor de cabeça e a garganta muito seca já lhe davam alguns indícios. Com muito esforço conseguia lembrar-se de uma festa, mas mais pormenores eram escusados.
Começou a olhar em volta. Que sítio era aquele? Nada lhe era familiar... De repente o que já não estava a correr bem conseguiu piorar. Umas costas. Estavam umas costas ao seu lado e possivelmente os outros membros de um corpo a elas agregadas. Gerou-se o pânico na cabeça de Catarina, especialmente ao aperceber-se que não tinha praticamente roupa nenhuma vestida.
Um lapso de memória depois de uns quantos copos já lhe tinha ocorrido pontualmente, mas mais que isso não... ela não podia, não queria acreditar que pudesse ter acontecido alguma coisa.
Um esforço da memória não ia além da imagem de muita gente balançando-se ao som de música ritmada e um buraco negro sem fim.
Avivada a memória ou não o certo é que estava ali a dividir uma cama (e sabia lá ela o que mais) com alguém a quem só via as costas. Catarina não queria ver mais nada, não queria saber de quem se tratava, era mau demais para ser verdade.
Uma pessoa a dormir ao seu lado, a sua roupa atirada pelo chão não a fazia sentir-se valer mais do que um caco partido. Rapidamente, resolveu pegar nos seus cacos todos e sair dali para fora.
No momento em que ia levantar-se, a outra pessoa mexeu-se também. Ai não! Tinha de acordar logo agora?! Não acordou, mas deixou escapar um pé para fora do edredon... Catarina não se mexia, mal respirava e fingia dormir, mas reparou no pé. As unhas estavam pintadas e um dos dedos tinha um anel. De masculino aquele pé não tinha nada...
Aquela história estava muito mal contada. O indivíduo virou-se para cima e qual não foi a grande surpresa. Aquelas costas, aquele pé pertenciam a Catarina B., a melhor amiga de Catarina.
Catarina lançou uma gargalhada estrondosa abraçando a amiga! "Nem imaginas o susto que me pregaste!"

* Cadela Com Cio

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

CCC* apresenta Clotilde

Foram precisos alguns meses num emprego novo para que Clotilde se apercebesse de que tinha um grande fraquinho por um indivíduo, que por acaso era seu superior hierárquico. A ideia de seduzir um chefe não lhe era especialmente querida, mas havia a possibilidade remota de um deles mudar de secção... De qualquer modo antes de pôr a carroça à frente dos bois e imaginar logo o final feliz, havia trabalho a fazer: engatar o gajo!
Clotilde esforçou-se, conseguindo ganhar a sua confiança tanto através de truques básicos como "Não tens um berbequim? Preciso de pendurar um cabide lá em casa!", como servindo de psicóloga de serviço.
Acontece que ele não agia com vontade própria, limitava-se a reagir e frequentemente com reacções muitos dúbias do tipo uma no cravo outra na ferradura ou um passo para a frente e outro para trás. Clotilde provocava, mas também não podia ser sempre ela a dar os passos todos.
Numa 6ª-feira, numa pausa para um cigarro, enquanto arrumava ideias, um indivíduo abordou-a. Mesmo sendo a primeira vez que se tinham visto, ele teve-os no sítio para lhe dizer tudo, ou pelo menos muito, do que ela queria ouvir da boca do chefe. A audácia do tipo foi compensada com um número de telefone. Há coisas tão simples que podem significar tanto.
Clotide telefonou a uma amiga. Estava carente e confusa. Porque é que os homens são feitos de legos e as peças certas estão distribuídas por uns quantos?
A amiga concordou, Clotilde precisava de uma distração, de uma compensação ou qualquer coisa assim... e se o Sr. Audaz se tinha posto à disposição, porque não aproveitar? Afinal um fim-de-semana de devaneio podia trazer-lhe uma boa lufada de ar fresco, de que ela bem precisava.
Foi sem dúvida um fim-de-semana diferente... mas ele não lhe preenchia as medidas de todo. Pior, não percebeu que aquilo era para ser uma coisa de ocasião e continuou a ligar-lhe.
Clotide não sabia como descalçar a bota. O Sr. Audaz não primava por ler as entrelinhas e ligava insistentemente. Clotilde chegou ao cúmulo de gozar com a situação. Uma vez ele telefonara-lhe umas horas depois da hora que ele dissera e ela não teve problemas em lhe dizer que como ele não telefonou à hora certa, ela marcara outra coisa... coitado ele tinha adormecido!!! E obviamente que a história de Clotilde era mentira.
Passadas algumas semanas ele desistiu e Clotilde respirou de alívio!

*Cadela Com Cio

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006

Novidades nos Mergulhos


O vendaval de ventos pérfidos que avassalaram a minha cabeça (ou mais concretamente a FALTA deles) tendo como ponto de partida as fontes do post de ontem, faz com que eu hoje inagure no "Mergulhos Fonológicos" uma nova rubrica de seu nome "CCC: Cadela Com Cio".
No CCC, relatarei eventos vividos ou imaginados em 1ª, 2ª ou 3ª mão, obviamente no singular e especialmente no plural (pois afinal temos todos um outro eu e se Deus quiser uns quantos tus!). Todas as histórias podem ter pontos de contacto com a realidade e não por pura coincidência, mas também não quer dizer que seja EU o sujeito. (A minha imagem já está bastante denegrida... e o pro-activismo vai estar na gaveta por uns tempos).
Podem haver outras curiosidades ou qualquer outro tipo de facto que julgue relevante para os publicar no âmbito desta rubrica.

Para qualquer dúvida, questão ou sugestão, é favor de contactar com a gerência dos Mergulhos.

Já agora:

Cadela:
s. f., Zool.,
fêmea do cão; cachorra; mulher maldosa; mulher mal comportada.

Com:
do Lat. cum; prep.,
indica várias relações, como companhia, instrumento, ligação, modo, oposição, etc.

Cio:
do Lat. zelu < Gr. zêlos, fervor, zelo
s. m., Zool.,
apetite sexual dos animais em determinados períodos; brama, berra. Oops! ;)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2006

Momento cOltural!

Uma conjunção mefistofélica qualquer fez estar a ler um livro chamado "Ele não está interessado em si!" (comecei há pouco, mas já o recomendo) e ter ido ao cinema ver um filme chamado "Prime" (não faço ideia do título em português).
O livro deita abaixo todas as minhas certezas e especialmente uma postura que tem pautado o ritmo da minha vida dos últimos anos... dos últimos 15 anos(!). Como é que é possível que a brilhante ideia do pró-activismo feminino possa estar errada? O amigo Greg explica e explica tão bem que inconscientemente passamos a vida em revista e apontamos o dedo a erros sem fim que cometemos (sim, primeira pessoa do plural, pois eu não estou sozinha neste barco!).
O filme acaba por ilustrar uma situação semelhante a outras tantas que conheci/conheço por experiência própria ou alheia. Uma mulher mais velha envolve-se com um tipo mais novo, muito mais novo. Não vou decifrar o fim do filme aos eventuais interessados em vê-lo, mas o desfecho é bastante plausível e agradou-me. É realista e natural.

Comentários a uma notícia (ou Sobre os pombos)

Hoje limito-me a comentar esta notícia do Público (07-02-2006).

“Os pombos não representam risco de transmissão do vírus da gripe das aves na Europa, afirma a Comissão de Acompanhamento da Gripe das Aves em Portugal, depois de hoje ter sido anunciada a morte de um criador de pombos no Iraque, que tinha dois animais infectados com a estirpe H5N1.

Um criador de pombos da localidade de Amara, no sul do Iraque, morreu com sintomas de gripe das aves. De acordo com os responsáveis do laboratório veterinário de Bagdad, dois dos seus pombos eram portadores do H5N1.”


Comentários:

Então já temos uma comissão de acompanhamento do H5N1 em Portugal? Grande tacho! A desgraçada da doença ainda nem sequer chegou ao país, e já temos tipos a segui-la… O que farão eles todo o dia?...


E digam lá que não sentem aqui um certo contra-senso? Por um lado, um columbófilo iraquiano qualquer morre vitimado pelo H5N1, juntamente com os seus dois pombos que também transportavam a doença, e por outro os nossos eruditos vêm peremptoriamente afirmar que não há risco de contágio entre pombos e humanos… É de tomates afirmar uma coisa destas perante o sucedido no Iraque…


Claro que os iluminados seres da Comissão de Acompanhamento da Gripe das Aves em Portugal podem (ou melhor, só podem) estar a pensar que o infeliz iraquiano pisou uma mina, ou que apertou demasiado o cinto de explosivos que estava a apertar para preparar mais um ataque suicida, mas mesmo assim é capaz de ser um bocado imprudente uma afirmação destas perante os factos passados nas margens do Eufrates.


A menos que esses senhores partilhem da minha convicção de que os pombos não são aves, ou seja, de que esses animais são apenas bestas demoníacas que comem produtos radioactivos todo o dia para depois produzirem fezes absolutamente corrosivas, as quais evacuam com precisão milimétrica sobre as nossas roupas e carros.

Assim sendo, os pombos não seriam verdadeiras aves, isto é, não seriam simpáticos como patos, úteis como galináceos, ou belos como cisnes, não, e assim não transmitiriam o H5N1. Para mim, e corroborando estas afirmações da Comissão de Acompanhamento da Gripe das Aves em Portugal, os pombos são apenas inúteis voadores que nos lixam a pintura dos carros, e que dão algum sentido à vida dos idosos.


Pelo sim, pelo não, sugiro que demos toneladas de carcaças com veneno aos nossos idosos, para que depois eles possam – sem o saber – intoxicar até à morte essas energúmenos dos pombos.


E que belo espectáculo seria: em vez de bostas de pombo a cair, seriam os próprios animais.


Avisem e distribuam capacetes aos cidadãos!

domingo, 5 de fevereiro de 2006

Senhora professora

Há cinco anos (mais ou menos) sou professora. Sempre quis ser professora até ao dia em que entrei numa sala de aula de chave e livro de ponto na mão. Pior ainda foi a visão dantesca de um gang de miúdos enormes a arrastarem-se para os seus lugares. Foi duro aperceber-me de que a ideia que tinha não coincidia em nada com a realidade... Enfim, águas passadas!
Felizmente hoje para bem da minha sanidade mental, não dou aulas numa escola oficial a crianças birrentas (indiferente se têm 10 ou 20 anos), embora continue a dar aulas privadas individuais ou a pequenos grupos.
Este sábado estava a dar a segunda aula de português a uma senhora austríaca na casa dos 50 anos e de repente tive um momento iluminado. Enquanto escrevia no quadro, apercebi-me que afinal até gosto de dar aulas, que estar a escrever as terminações de um verbo no quadro ou explicar a regra do feminino ou do plural dá-me prazer! Mas para isso muito contribui o meu público.
Num seminário em que estive recentemente, ouvi com grande espanto que 70% do sucesso dos alunos depende de eles mesmo e apenas uns meros 30% do desgraçado do professor.
Conclusão: Este ano não me posso queixar em nada dos meus alunos e confesso que até gosto de ser professora, mas ainda bem que já não é a minha profissão principal!

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

Desculpa Esfarrapada

Antes de mais, quero dizer, publicamente, que isto não aconteceu na realidade, que é inventado. Porém, quem me conhece bem sabe que poderia perfeitamente ter acontecido.

(De qualquer modo, reparem na pedagogia deste texto.)

Ora bem, tudo se passou por volta das 15:30, num destes dias gelados desta semana. Eu encontrava-me no trabalho, infelizmente a fazer apenas trabalho de secretária, ou seja, a ler merdas e a corrigir trabalhos de formandos – trabalhos de muito baixa qualidade, diga-se…

Acontece que o almoço tinha sido à base de grão, elemento que compunha a suculenta salada de atum que eu tinha comido hora e meia antes.

No meio do marasmo e do tédio em que estava a afogar-me a ler aqueles trabalhos, começo a sentir os meus intestinos a darem-me sinal de que queriam expelir qualquer coisa que não sólida, ou seja, havia ar a mais dentro de mim e ele teria de sair rapidamente, pois começava a incomodar. Dito de outra forma: vinha aí um belo, sonoro, provavelmente mal-cheiroso, mas aliviante peido.

Imediatamente, estudei as hipóteses: ora ir à casa de banho não era opção, pois estava ocupada; por outro lado, os meus colegas há já algum tempo que não entravam na minha sala. Logo, parecia-me que estavam reunidas as condições necessárias para que, inclinando-me airosamente sobre uma nádega, pudesse pôr fim ao meu aperto.

Se assim pensei, melhor o fiz. E que alívio, meus caros… Não há dúvida de que o grão me causa muita flatulência e de que um belo peido, quando bem dado, é um alívio que roça o prazer. Quem não sorri e liberta um sonora “aghhhhhh…” quando dá um traque?

Inesperadamente, ainda quando eu estava a descobrir que afinal tinha dado peido que além de sonoro tinha um odor pestilento, entra-me na sala uma colega minha para ir arrumar uns dossiers exactamente no móvel que fica junto à minha secretária.

O que fazer?!

Com os olhos pregados no papel que tinha sobre a secretária, a minha cabeça tentava desesperadamente pensar num engenhoso plano para me desculpar acerca do cheiro estranho que invadia a sala, mas não conseguia engendrar nada que me subtraísse das evidentes responsabilidades.

A minha colega arrumou o dossier, deu uma fungadela, depois outra, virou-se lentamente para trás, olhou para mim, cheirou mais um pouco e de repente, quando claramente estava num beco sem saída e pensava que perderia todo a (pouca) consideração que ela tem por mim, surgiu-me uma desculpar perfeita:

“- Eh pá, não está aqui um cheiro estranho?” – disse-lhe eu, descaradamente.

“- Está, realmente está… Cheira mal…” – concordou ela.

E foi aí que eu consegui colocar uma expressão mais normal, senti até que sorri ligeiramente, deixei de estar vermelho de vergonha e, enquanto fingia olhar para os meus ténis, disse: “Olha, pá… Que chatice… Pisei caca de cão…”

Brilhante, brilhante! Que ideia magnífica! Genial! Ali estava a perfeita desculpa! Ali estava a razão inventada para perfeitamente credível! Ali estava o verdadeiro responsável: um cão, um malvado cão!

Claro que tudo caiu por terra quando ela me disse: “Mas nós almoçámos juntos no refeitório, viemos directos para aqui, ainda há pouco estive nesta sala, tu estiveste sempre aqui e não me cheirava a nada…”

Bolas!