quarta-feira, 4 de maio de 2005

Encontros numa casa de banho

Uma das coisas boas de continuarmos a estudar na mesma faculdade, depois de já termos feito a licenciatura, é o convívio que isso permite com dois tipos de pessoas: um são os caloiros e os demais estudantes que nos provocam agradáveis sensações nostálgicas; outro são os nossos ex-professores, o que permite encontros que espoletam várias e, por vezes antagónicas, reacções.

Esta quarta-feira fui à faculdade para uma reunião com as minhas orientadoras de mestrado. Porém, como consegui chegar antes da hora marcada – eu tinha que falar disto, pois em mim este facto é de assinalável invulgaridade... – tive tempo para ir à casa de banho dar uma mijinha, mudar a água às azeitonas, dar de beber ao urinol, etc., etc., etc.

Quando já estava na parte de abanar a piroca, eis que entra alguém que decide deixar um urinol de espaço entre nós os dois e inicia actividade fisiológica semelhante à que eu estava a terminar.

Acontece que, indubitavelmente, o indivíduo estava muito menos necessitado de urinar do que eu, e sucedeu que acabámos de fazer o que estávamos a fazer praticamente ao mesmo tempo. Diria até que as últimas gotinhas terão caído em uníssono – essa palavra tão bela e que qualquer pessoa da minha idade associa imediatamente aos livros da colecção Uma Aventura, uma vez que as autoras punham sempre as personagens e “exclamar em uníssono”, nunca simplesmente a exclamar...

Gotinhas inocentemente projectadas contra as sórdidas paredes do urinol, mangueira recolhida, fecho a ser apertado e, claro, o inevitável olhar para o lado. E quem é que eu encontro?! O antigo professor meu, claro está, o qual, ainda por cima, me reconhece de imediato, lembrando-se inclusive do meu nome.

Claro que nos falámos, mas aqui surgiu o problema dos encontros entre homens na casa de banho – e estou a falar dos encontros em geral, nem sequer me vou referir aos perigos específicos dos encontros entre gajos nas casas de banho da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa...
O problema de que vos falo surge cirurgicamente quando encontramos alguém na casa de banho no exacto momento do “depois-da-mija-mas-antes-de-lavar-as-mãos”. E se juntarmos a isto o facto de ainda estarmos ambos a puxar o fecho da braguilha para cima, então surge, sem dúvida, uma situação peculiar, para dizer o mínimo...

- “Olá João, como está...”
- “Ora viva, professor...Cá estamos... Então e o professor?...”
E a braguilha ainda a ser puxada...
- “Pois, olhe, vamos andando... Então e o seu mestrado?...

Nesta altura, já com as braguilhas fechadas, havia algum desconforto ainda, pois colocava-se uma questão óbvia na minha cabeça, eventualmente partilhada pelo meu ex-professor: vou apertar a mão a este tipo que ainda agora estava com a mão na gaita a mijar ao meu lado?...
Depois de ambos esboçarmos um leve esticar de braços, dirigimo-nos para os lavatórios.
- “Olhe, é por isso mesmo que cá estou: vim falar com as minhas orientadoras, pois devo entregar a tese até Fevereiro de 2006...”
- “Certo, certo... Olhe, tem graça, eu também apresentarei a minha tese de doutoramento nessa altura...”
- “Ai sim?! E é sobre o quê?”

Enquanto a água corria, o homem lá me explicou que irá comparar a pintura de Rubens à imagética de Os Lusíadas e, de repente, conversa acabada, surge mais um belo momento: de mãos molhadas e sem ter onde as enxaguar, despedimo-nos, e novamente olhámos para as mãos um do outro, esboçámos um leve movimento como quem vai dar um passou-bem, mas devemos ter pensado na mesma coisa: há um minuto atrás a mão deste fulano estava na gaita dele – será que eu tenho mesmo que lhe apertar a mão?

Não apertámos.